Projeto ‘Junto à Terra’ alarga atividades ao Vale do Tua e sensibiliza novas gerações a valorizar e preservar a Biodiversidade dos seus territórios

As atividades de campo da 3.ª edição do projeto ‘Junto à Terra’ (JaT) no território do Baixo Sabor (JaT Sabor) arrancaram no dia 19 de março, em Macedo de Cavaleiros, com uma visita de alunos/as do 8.º ano de escolaridade ao Geossítio Gnaisses de Lagoa, localizado na margem direita do Rio Sabor, muito próximo da aldeia de Lagoa. O ciclo de atividades de campo do JaT Sabor irá decorrer ainda nos dias 3 de abril, em Alfândega da Fé; 4 de abril, em Mogadouro, e 5 de abril, em Torre de Moncorvo.

Oficina Palombar JaT Sabor

Oficina Palombar JaT Sabor

Neste ano letivo 2018/2019, o projeto JaT alargou a sua área de intervenção, e realiza também, pela primeira vez, atividades no território do Foz Tua (JaT Tua), nos cinco concelhos por ele abrangidos, durante os meses de março e abril, nomeadamente nos dias 25, 26 e 27 de março, em Mirandela; 28 de março, em Carrazeda de Ansiães; 29 de março, em Vila Flor; 1 de abril, em Murça, e 2 de abril, em Alijó.

No âmbito das atividades de campo do JaT, estão envolvidas várias entidades locais, com uma ação territorial abrangente nos concelhos mencionados, promovendo, desta forma, o contacto direto daqueles jovens com profissionais de diferentes áreas de especialização e que trabalham para a proteção e conservação da biodiversidade nesses territórios.  Esta interação pretende também promover a orientação destes jovens e futuros profissionais para o desenvolvimento de atividades económicas que visem a valorização desses recursos, numa perspetiva que assegure a sua sustentabilidade, conservação, proteção e fomento.

O JaT Sabor e o JaT Tua contam, na implementação das suas componentes práticas, que estão inseridas num projeto mais abrangente de educação ambiental promovido pela EDP e que decorre durante todo o ano letivo, com a parceria de várias entidades, entre as quais a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, a APFNT – Associação de Produtores Florestais do Nordeste Transmontano, o Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema, a Associação GeoPark Terras de Cavaleiros,  a Zasnet - Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, o SEPNA-GNR – Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da Guarda Nacional Republicana, o PNRVT – Parque Natural Regional do Vale do Tua, o Grupo Nordeste – Grupo para a Promoção do Desenvolvimento Sustentável, a Silvidouro – Associação Agro-Florestal, a Aflodounorte - Associação Florestal do Vale do Douro Norte e o IPB-CIMO – Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança.

Kit Junto à Terra

Kit Junto à Terra

Cada uma das entidades mencionadas é responsável por uma Oficina dinamizada durante os vários dias de atividades de campo com os/as alunos/as. As várias entidades trabalham, junto da comunidade escolar, temas bastante diversificados, escolhidos tendo em conta as especificidades de cada território, que estão inseridos nas Oficinas de campo.

 No Jat Sabor, os temas das Oficinas são:

Oficina 1 - "Pastorícia e Biodiversidade"  | Promotor: AEPGA

Oficina 2 - "Biodiversidade Florestal" | Promotor: APFNT

Oficina 3 - "Os Minerais e a Biodiversidade" | Promotor: GeoPark Terras de Cavaleiros

Oficina 4 - "À Descoberta do Lobo" | Promotor: Grupo Lobo

Oficina 5 - "Biodiversidade Agrícola e Selvagem" | Promotor: Palombar

Oficina 6 - "Proteção da Natureza e do Ambiente" | Promotor: GNR - SEPNA

Oficina 7 - "Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica" | Promotor: ZASNET

 Já as Oficinas do JaT Tua são dedicadas aos seguintes temas:

Oficina 1 - "A avifauna do Vale do Tua"  | Promotor: Grupo Nordeste

Oficina 2 - "As náiades do Tua e a biodiversidade de rios" | Promotor: IPB-CIMO

Oficina 3 - "Morcegos no Vale do Tua" | Promotor: PNRVT

Oficina 4 - "Proteção da Natureza e do Ambiente" | Promotor: GNR - SEPNA

Oficina 5 - "Microrreservas e Habitats" | Promotor: Silvidouro/Aflodounorte

Oficina 6 - "Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica" | Promotor: ZASNET

Oficina Grupo Nordeste Jat Tua

Oficina Grupo Nordeste Jat Tua

Durante as oficinas, os jovens participantes recebem um kit composto por um saco de pano, um “Passaporte”, uma t-shirt e uma caneca.  O “Passaporte JaT Sabor” e o “Passaporte JaT Tua” são cadernos didáticos com conteúdos de educação ambiental que são também um guia para as Oficinas temáticas integradas nas atividades de campo, com uma componente vincada na valorização do território, e fomentando uma cultura cívica que considere o ordenamento do território e a conservação e respeito pelo património - natural, paisagístico e cultural - que nos permita viver em harmonia e conscientes sobre os limites do Planeta, incluindo a adaptação às alterações climáticas.

A componente prática do projeto JaT pretende sensibilizar as novas gerações, através da realização de atividades junto à terra, ou seja, in loco, para a importância do seu contexto ecológico e ambiental, bem como dos recursos e património naturais. O grande objetivo é ensinar os mais novos a valorizar e a preservar a Natureza e a Biodiversidade dos territórios onde vivem.

Oficina Grupo Nordeste Jat Tua

Oficina Grupo Nordeste Jat Tua

José Pereira, presidente da Palombar e membro da direção do Grupo Nordeste, sublinha a importância deste projeto para “potenciar, num futuro próximo, a fixação destes jovens no seu território e incutir-lhes um olhar diferenciador sobre os recursos endógenos e o seu potencial como motor do desenvolvimento regional e rural, desenvolvimento este baseado em conceitos de sustentabilidade mais amplos que integrem a vertente ambiental, mas que considerem também as vertentes económica, social e cultural, numa perspetiva de manutenção do desenvolvimento e dos padrões de vida atuais e da sua necessária evolução com maior responsabilidade, ética e eficiência”.

Nuno Portal, diretor de sustentabilidade da EDP Produção, manifestou estar “muito satisfeito com a aceitação do Junto à Terra pela comunidade escolar” e “acredita que os jovens, depois de beneficiarem destas iniciativas, passam a valorizar o seu património natural como fator de desenvolvimento socioeconómico e, assim, a compreender a necessidade de respeitar e proteger este valor endógeno”.

O JaT Sabor é dirigido a alunos/as do 8.º ano de escolaridade dos Agrupamentos Escolares dos concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Torre de Moncorvo. Já o JaT Tua é direcionado para alunos/as do 8.º ano de escolaridade dos Agrupamentos Escolares dos concelhos de Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor, e ainda a alunos/as da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais e da ESPROARTE – Escola Profissional de Arte de Mirandela.

A rede de parceiros, além dos agrupamentos escolares e escolas profissionais, estende-se ainda a todos os Municípios abrangidos pelo projeto, bem como à Associação de Municípios do Baixo Sabor.

Vale do Sabor

Vale do Sabor

O projeto Jat

O JaT é um projeto de educação ambiental dirigido para a Comunidade Escolar, “onde a importância da biodiversidade é comunicada numa linha concetual que parte do pensamento global para a ação local. É um processo que procura criar, nos jovens, uma abordagem de Sustentabilidade feita de atitudes, de mudança comportamental e de uma (re)valorização do território por força do contributo do património natural e dos serviços dos ecossistemas para a economia local e bem-estar da sua comunidade e população em geral”, explica Rui Manuel Rodrigues Lopes Teixeira, do Conselho de Administração Executivo da EDP.

O JaT nasceu da estratégia definida pela EDP para mitigar o impacte na biodiversidade decorrente dos aproveitamentos hidroelétricos do Baixo Sabor e Foz Tua. Assume-se como o instrumento de envolvimento da comunidade local capaz de trazer o Homem e a atividade humana à equação da conservação da natureza e da biodiversidade. Pois o sucesso das medidas compensatórias, como esforço de mitigação de impacte de médio-longo prazo, depende da capacidade de inverter uma tendência natural de degradação ambiental e perda de biodiversidade nestes territórios, provocada em grande parte pelo êxodo rural e do decorrente abandono das atividades agro-silvo-pastoris tradicionais.

“O JaT, enquanto projeto de educação ambiental, diferencia-se pelo alinhamento estratégico transversal e de médio-longo prazo, de opção pela Capacitação como fator de retenção do Capital Humano no território, pelo envolvimento e liderança local ativa e pela abordagem bottom-up construída no fórum de participação da rede de parceiros locais envolvidos”, destaca a EDP.

O JaT é uma ferramenta de educação para a sustentabilidade que pretende contribuir para a construção de um perfil de competências nos jovens, assente na valorização do território e na riqueza do património natural como fator de desenvolvimento socioeconómico.

Um perfil que contrarie a tendência natural de degradação ambiental e de perda de biodiversidade verificada nestes territórios do interior, provocada, em grande parte, pelo êxodo rural e pelo consequente abandono das atividades agro-silvo-pastoris tradicionais.

O JaT é, desta forma, um processo que procura criar, nos jovens, uma abordagem de Sustentabilidade feita de atitudes, de mudança comportamental e de uma (re)valorização do território por força do contributo do património natural e dos serviços dos ecossistemas para a economia local e bem-estar da sua comunidade e população em geral.

O JaT teve a sua fase piloto no território do Baixo Sabor (JaT Sabor), onde, ao longo dos anos letivos 2016/2017 e 2017/2018, foi construído, testado e maturado em todas as ações didático-pedagógicas das três vertentes/etapas (prática, teórica e patilha), num envolvimento ativo de todos os parceiros de projeto (escolas, autarquias, e outras organizações públicas, privadas ou da sociedade civil). No corrente ano letivo, 2018/2019, para além de ser a sua 3.ª edição no território do Baixo Sabor, é a 1.ª edição na expansão para o território do Foz Tua (JaT Tua).

Território do Vale do Sabor

Território do Vale do Sabor

As atividades do Jat

 As atividades do Jat estão organizadas em três etapas que, percorridas sequencialmente, fecham um ciclo anual, coincidente com um ano letivo: Etapa I -componente teórica; Etapa II - componente prática e Etapa III – componente partilha.

A atividade da Componente Teórica decorre numa dinâmica ensino-aprendizagem em modo e-learning e em contexto de sala de aula, com recurso a uma ferramenta eletrónica didático-pedagógicas (site e e-learning) construída para o efeito, disponibilizada em juntoaterra.edp.pt. Estes conteúdos estão configurados para serem acedidos via computador ou via dispositivos móveis.

A Componente Prática, por sua vez, tem como objetivo levar os/as alunos/as para um contexto de campo próximo dos valores naturais do seu território e, através do contacto direto com as particularidades e os conhecimentos da biodiversidade local, transmitir-lhes todo o potencial valor socioeconómico associado e a importância que representa para o desenvolvimento das comunidades locais. Através de oficinas temáticas, e tendo como “guia” o “Passaporte JaT”, os/as alunos/as percebem a biodiversidade que lhes pertence, que lhes é útil e que deve ser protegida como legado das gerações futuras.

Para além das atividades de campo, a componente prática prevê ainda atividades de desenvolvimento de competências técnicas e pessoais nos/as alunos/as, indutoras e facilitadoras da execução do trabalho final, um vídeo, candidato a um concurso e prémio.

Cada ciclo anual do projeto JaT termina com a atividade ‘Partilha’, designada por ‘Workshop Final JaT’. Esta etapa procura gerar uma dinâmica de intercâmbio entre os/as alunos/as dos diferentes agrupamentos e os demais parceiros de projeto. É neste contexto que os trabalhos da lista final, selecionados pela votação do público, são apreciados por um júri independente constituído para o efeito.

Este é o momento onde os/as alunos/as autores dos trabalhos têm oportunidade de apresentar os seus trabalhos ao júri e ao restante público para, no final, serem anunciados os 3 vencedores premiados.

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Palombar enriquece formação na área do voluntariado dedicado à conservação do património

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural participou, entre os dias 10 e 16 de março, na formação internacional 'Erasmus Heritage Leaders Training', que decorreu em Villandraut, em França, organizada pela Union Rempart, no âmbito do programa Erasmus +, e que teve como entidade de acolhimento a Associação Adichats.

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Esta foi uma semana dedicada à partilha de conhecimentos e de boas práticas na área da conservação do património construído em vários países da Europa que envolve voluntários/as. A participação da Palombar nesta ação de formação internacional teve como objetivo enriquecer as competências e otimizar os procedimentos da associação na área do voluntariado dedicado à conservação do património rural edificado.  

A associação francesa Union Rempart é parceira da Palombar na área do voluntariado em prol da conservação do património construído, nomeadamente na realização dos Campos de Trabalho Voluntário Internacionais (CTVI), acolhimento e acompanhamento de voluntários do Serviço Cívico Francês, participação em formações e intercâmbios internacionais no âmbito da preservação do património e ainda em outras ações no Programa Erasmus +.

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Durante a formação, estiveram presentes participantes de várias nacionalidades, como Portugal, Espanha, França, Itália, Inglaterra, Bulgária, Roménia, Croácia, entre outras.

Esta formação, financiada pelo Programa Erasmus + da União Europeia, teve como principais objetivos promover a capacitação de jovens e melhorar as ações de voluntariado no âmbito de projetos de restauro do património; partilhar as melhores práticas e recursos sobre como gerir um projeto de conservação e restauro do património com voluntários; desenvolver estratégias e guidelines que serão implementadas por organizações sem fins lucrativos com o objetivo de promover a preservação do património de países europeus; garantir que os responsáveis por projetos de gestão de voluntariado e património ganhem e desenvolvam o conhecimento e as habilidades necessárias para planear e implementar ações de conservação do património junto das comunidades e a nível individual, bem como para receber apoios institucionais locais e nacionais; contribuir para estabelecer práticas e padrões comuns para os participantes aplicarem, a nível local e organizacional, o processo de capacitação e disseminar o impacto e o alcance dos projetos e ainda promover novas parcerias entre organizações de voluntariado europeias semelhantes.

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Esta foi, "sem dúvida, uma experiência muito enriquecedora que possibilitará uma crescente melhoria da ação da nossa associação a esse nível, permitindo dotar a equipa da Palombar de novas ferramentas de trabalho e de gestão. Com uma componente teórica e prática, esta formação foi muito interativa, baseando-se em metodologias de educação não formal, permitindo uma aprendizagem sólida que se inicia nos conhecimentos que os e as participantes já têm acerca dos temas em debate", sublinhou Gaëlle Carvalho, responsável pela gestão de projetos e recursos na área do voluntariado na Palombar.

"Para além de uma oportunidade de melhorar os nossos conhecimentos e práticas, esta ação permitiu estabelecer novos laços com entidades que desenvolvem um trabalho semelhante ao nosso no resto da europa, bem como estreitar relações com associações com as quais a Palombar tem vindo a desenvolver um trabalho de parceria e/ou com as quais participou em projetos conjuntos em anos anteriores", conclui.

Ninho artificial atrai abutres ameaçados para o Douro Internacional em tempo record

Um dos ninhos artificiais instalados no Douro Internacional em janeiro deste ano já tem ocupantes: um casal de abutres-pretos (Aegypius monachus ). Os ninhos foram instalados no âmbito do projeto Life Rupis, do qual a Palombar é parceira, uma vez que o incêndio que devastou a região de Lagoaça em 2017 destruiu o ninho do casal já existente, bem como muitas das árvores altas com boas condições para estas aves fazerem o ninho.

O casal de abutres-pretos que se instalou agora num destes ninhos artificiais duplica o número de pares reprodutores no Parque Natural do Douro Internacional, reforçando as probabilidades de instalação, no nordeste de Portugal, de uma nova colónia desta espécie globalmente ameaçada, destaca a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), num comunicado.

Abutre-preto

Abutre-preto

“O facto de este ninho ter sido ocupado tão rapidamente mostra a importância de providenciar locais seguros onde estas aves ameaçadas possam fazer o ninho, sobretudo na sequência de eventos devastadores como o incêndio de 2017”, diz Joaquim Teodósio, coordenador do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA e do projeto Life Rupis.

Os ninhos artificiais são plataformas elevadas instaladas no topo da copa de árvores selecionadas, onde os abutres-pretos podem fazer o ninho e manter as crias em segurança. No âmbito do projeto Life Rupis, este trabalho especializado foi realizado pela empresa Oriolus, com apoio dos Vigilantes de Natureza e técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, tendo sido construídas quatro destas plataformas em locais estratégicos no Parque Natural do Douro Internacional. Pouco tempo depois, o novo casal instalou-se numa delas.

Estes novos habitantes das Arribas do Douro juntam-se ao outro casal de abutres-pretos da região, que vem sendo acompanhado, desde que se fixou na área há 7 anos, pelas equipas dos dois parques abrangidos pelo Life Rupis: o Parque Natural do Douro Internacional (ICNF) e o Parque Natural  Arribes del Duero (Junta de Castilla y León).

Quando esse primeiro casal fez do Douro a sua morada em 2012, surpreendeu os biólogos ao instalar-se a cerca de 100 km das colónias mais próximas, localizadas em Espanha. As maiores aves que percorrem os céus portugueses, os abutres-pretos vivem normalmente em colónias com dezenas de indivíduos. Por vezes, casais recém-formados afastam-se de uma colónia, começando um novo núcleo – foi o que sucedeu em Barrancos, por exemplo. Mas, normalmente, estes novos núcleos formam-se a 10 ou 20 km da colónia de origem – não a 100 km.

A esperança da equipa do Life Rupis é que ambos os casais se reproduzam com sucesso e que este verão se juntem, assim, mais duas crias àquela que teve sucesso o ano passado, depois de os pais terem perdido a cria de 2017 no incêndio. A longo prazo, a equipa tem esperança que esta nova geração, quando atingir a maturidade, venha também a fixar-se na região. E que a ela se juntem aves de outras origens que, por vezes, dispersam até ao Douro, para que, aos poucos, se instale uma colónia de abutres-pretos no nordeste de Portugal. Para esta espécie ameaçada, uma nova população em Portugal seria uma excelente notícia e um contributo significativo para a recuperação da espécie na Europa.

Sobre o Life Rupis

O 'Life Rupis – Conservação do britango e da águia-perdigueira no vale do rio Douro’ é um projeto de conservação transfronteiriço, cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia. Para além da componente de conservação da natureza, desenvolve diversas atividades de promoção da região, dos seus valores naturais e do seu potencial para o turismo ornitológico. Coordenado pela SPEA, o projeto Life Rupis tem mais oito parceiros: a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural Associação, a Transumância e Natureza (ATNatureza), o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Junta de Castilla y León, a Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León, a Vulture Conservation Foundation (VCF), a EDP Distribuição e a Guarda Nacional Republicana (GNR). Saiba mais www.rupis.pt.

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Petição #ArmadilhasNÃO quer proibir fabrico, posse e venda de armadilhas para aves

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) lançou a petição #ArmadilhasNÃO, que apela à Assembleia da República para alterar as leis em vigor de forma a proibir o fabrico, posse e venda dos meios que permitem a captura ilegal de aves, e a proibir a apanha da formiga d’asa, cujo único uso é como isco nesta atividade ilegal.

Fotografia | DR

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A estimativa de um estudo da SPEA, realizado em 2014, indica que 40 000 aves selvagens são mortas num ano em Portugal e 10 000 são capturadas para colocar em gaiolas. “Estes crimes passam geralmente impunes por serem difíceis de detetar e investigar, em parte porque, embora seja ilegal capturar ou caçar estas aves, os meios usados para estas capturas não são proibidos”, sublinha a sociedade, acrescentando que “é urgente colmatar esta grave lacuna legal”.

A SPEA esclarece que a lei já proíbe a captura de aves selvagens, em reconhecimento do valor destes animais para o país: contribuem, nomeadamente, para controlar as pragas agrícolas, diminuir a transmissão de doenças e para dispersar sementes. No entanto, dezenas de milhares de aves continuam a ser apanhadas todos os anos, tanto para serem consumidas como “passarinhos fritos” ou “voadores”, como para serem vendidas como aves de gaiola. “Para manter estas aves a salvo, não chega proibir que sejam capturadas: é necessário proibir também os meios que permitem capturá-las”, afirma a SPEA.

Estes meios, como as armadilhas de mola (também conhecidas por costelos ou esparrelas), redes e “visgo” (uma cola artesanal destinada à apanha de pássaros em árvores, sebes ou no cimo de canas), matam indiscriminadamente qualquer ave que neles caia.

A petição também propõe que seja proibida a apanha da formiga d’asa. Estas formigas, que são maiores e mais nutritivas, são um alimento aliciante para as aves que procuram energia extra quando se preparam para a migração. Por isso, são usadas como isco por quem quer capturar ilegalmente aves.

Com o objetivo de garantir um combate mais efetivo à captura ilegal de aves selvagens em Portugal, a Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural apela à assinatura da petição, que pode ser realizada aqui.

Glifosato: análises revelam contaminação generalizada em Portugal por este herbicida cancerígeno

A Plataforma Transgénicos Fora, que integra a Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, lançou uma iniciativa em 2018 para testar a presença de glifosato em voluntários portugueses. As análises, realizadas em julho e em outubro com o mesmo grupo, demonstram uma exposição recorrente ao herbicida e apontam para uma contaminação generalizada por glifosato em Portugal.

Fotografia | DR

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Pela primeira vez em Portugal foi possível calcular os valores de exposição efetiva ao glifosato (que levam também em consideração o AMPA - substância em que o glifosato se transforma quando começa a degradar-se) e os resultados, quando comparados com outros países europeus, (1) mostram uma diferença preocupante: enquanto que na média de 18 países se verifica que 50% das amostras estão contaminadas, as duas rondas de testes em Portugal estavam acima desse valor – e, em outubro, a contaminação foi detetada em 100% das amostras, tal como apresentado na imagem abaixo.

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O glifosato é o herbicida mais usado em Portugal e causa cancro em animais de laboratório, estando classificado pela Organização Mundial de Saúde como carcinogéneo provável para o ser humano. (2)

Um novo estudo sobre o potencial cancerígeno dos herbicidas veio revelar que a exposição ao glifosato pode aumentar em 41% o risco de linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro que se desenvolve no sistema linfático e que afeta, por ano, 1 700 pessoas em Portugal. O estudo foi publicado na revista Mutation Research e divulgado no site Science Direct.

Embora a Comissão Europeia tenha chegado a conclusão diferente, informações recentes mostram que essa avaliação científica resultou de graves conflitos de interesses, ao ponto de plagiar sistematicamente os pontos de vista da indústria. (3)

O valor médio da contaminação das amostras foi de 0,35 ng/ml em julho (valor mais alto: 1.39 ng/ml) e de 0,31 ng/ml em outubro (valor mais alto: 1,20 ng/ml), o que é cerca de três vezes (300%) acima do limite legal na água de consumo. (4) Considerando apenas as crianças, verifica-se que, em julho, estavam próximo da média, enquanto que, em outubro, estavam claramente acima (com 0,44 ng/ml). O facto de existir uma contaminação considerável em crianças já tinha sido detetado em 2016 (5) e é um sinal de alerta para a necessidade de conhecer melhor qual a exposição real da população portuguesa em termos de estratificação etária, ao longo do tempo e nos diferentes pontos do país.

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 Contaminação permanente

Tanto quanto se sabe, a maior parte do glifosato ingerido ou inalado pelo organismo é excretado pela urina em menos de um dia. Isso significa que a contaminação detetada na segunda ronda de análises provém de novos contactos com o herbicida. Quando se deteta contaminação ao longo do tempo, isso significa que houve exposição sucessiva do organismo – ou seja, há glifosato a recontaminar constantemente a população portuguesa.

Os voluntários de 2016 e de 2018 revelam dimensões diferentes da população nacional. Em 2016, houve uma amostragem tão aleatória quanto possível: nenhum dos voluntários escolhidos consumia agricultura biológica ou estava ligado a alguma corrente ou preocupação particular com a alimentação. Já em 2018, os participantes inscreveram-se por iniciativa própria e tiveram de pagar o custo da 1.ª análise (78,20€). Cerca de 80% dos inscritos identificaram-se como consumidores de alimentos biológicos com alguma regularidade.

Em termos de resultados, os participantes de 2016 estavam significativamente mais contaminados, o que aponta para um possível efeito protetor nos consumidores de agricultura biológica. Por outro lado, a alimentação não é o único veículo de contaminação: a água e o ar são fontes igualmente relevantes e a época do ano também tem influência (usa-se mais glifosato no início da primavera, precisamente a altura em que as análises de 2016 tiveram lugar).

 A coordenadora da campanha Autarquias Sem Glifosato/Herbicidas, Dra. Alexandra Azevedo, alerta: "Tivemos conhecimento de análises em águas superficiais na bacia do rio Douro que revelam contaminação 70 vezes acima do limite máximo legal. Ainda há autarquias que lavam as ruas com glifosato, mas já há outras que abandonaram os herbicidas e provam no terreno que as alternativas existem”. (6)

 A bióloga Margarida Silva, da Plataforma Transgénicos Fora, lembra: "A ciência mais recente mostra que o glifosato altera profundamente a composição do nosso microbiota gastrointestinal. Quando esse equilíbrio fica comprometido, podem surgir doenças graves, desde diabetes tipo 2 a aterosclerose, a obesidade e até cancro. Que mais evidências são necessárias para que o governo cumpra a sua função de proteger a nossa saúde?"

 Apelo ao governo

É verdade que o trabalho realizado pela Plataforma Transgénicos Fora não permite retirar conclusões finais, mas o peso das evidências não pode ser ignorado. Desde 2016, em que a Plataforma mostrou pela primeira vez que a situação portuguesa era inesperadamente preocupante, não foram ainda tomadas pelos responsáveis governamentais quaisquer medidas que permitam desvendar o que se passa de facto no país e iniciar um caminho de redução do uso dos herbicidas à base de glifosato.

 Neste contexto, a Plataforma Transgénicos Fora apela ao Governo Português para:

  •  Lançar um estudo abrangente sobre a exposição dos portugueses ao glifosato;

  • Proibir a venda de herbicidas à base de glifosato para usos não profissionais;

  • Tornar obrigatória a análise ao glifosato na água de consumo;

  • Acabar com o uso de herbicidas sintéticos na limpeza urbana;

  • Apoiar os agricultores na transição para uma agricultura pós-glifosato nos próximos anos;

  • Como proteger-se do glifosato e seus efeitos.

 A Plataforma Transgénicos Fora divulga também um documento com sugestões detalhadas para quem estiver interessado em limitar a sua exposição ao glifosato. O documento pode ser descarregado aqui.

REFERÊNCIAS

 (1) Hoppe, H-W. (2013). Determination of Glyphosate residues in human urine samples from 18 European countries. Report Glyphosate MLHB-2013-06- 06. Medical Laboratory Bremen, Haferwende 12, 28357 Bremen, Alemanha, 12 de junho. https://tinyurl.com/hoppe2013

(2) Guyton, Kathryn Z., et al. (2015). "Carcinogenicity of tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon, and glyphosate." The Lancet Oncology 16.5: 490-491. https://tinyurl.com/yxq7pkro

(3) Ferreira, Ana B. (2019). Glifosato. Especialistas contratados pela UE copiaram relatórios da Monsanto. Diário de Notícias, 15 de Janeiro. https://tinyurl.com/yblgc2kf

(4) O limite imposto pela Directiva 98/83/CE do Conselho de 3 de novembro de 1998 relativa à qualidade da água destinada ao consumo humano é de 0,1 ng/ml. https://tinyurl.com/y52ykh4g

(5) Plataforma Transgénicos Fora (2016). Glifosato: o herbicida que contamina Portugal. 29 de abril. https://tinyurl.com/glifosato2016portugal

(6) O mapa das autarquias que aderiram ao compromisso de não usar glifosato está em https://tinyurl.com/autarquiasmapaglifosato

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1.ª Edição do Curso 'Uso e Potencialidades da Armadilhagem Fotográfica” teve todas as vagas preenchidas e contou com formandos de diversas áreas

A 1.ª Edição do curso ‘Uso e Potencialidades da Armadilhagem Fotográfica em Estudos de Ecologia e Monitorização de Fauna Silvestre’ teve todas as vagas preenchidas e contou com a participação de formandos de diversas áreas, de Portugal e Espanha.

Fotografia de grupo tirada com uma máquina de fotoarmadilhagem.

Fotografia de grupo tirada com uma máquina de fotoarmadilhagem.

O curso foi organizado pela Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, em parceria com o Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos - Universidad de Castilla-La Mancha (IREC, CSIC-UCLM-JCCM) e a Unidad Mixta de Investigación en Biodiversidad - Universidad de Oviedo (UMIB, UO-CSIC-PA), ambos em Espanha. Contou ainda com o apoio da Câmara Municipal de Vimioso, Vales de Vimioso, PINTA – Parque Ibérico de Natureza e Aventura de Vimioso e dos Bombeiros Voluntários de Vimioso.

Fotografia de grupo

Fotografia de grupo

Inicialmente, a Palombar tinha disponibilizado 15 vagas para o curso, mas, devido à elevada procura, estas foram alargadas para 20, tendo sido todas preenchidas. Os formandos, de nacionalidade portuguesa e espanhola, eram de diversas áreas e níveis de ensino, desde alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento em biologia e ecologia até técnicos de conservação da natureza e biodiversidade e também professores do ensino superior.

João Santos, biólogo doutorado da equipa da Palombar, organizador e coordenador científico do curso, sublinhou que “este veio colmatar uma lacuna que existia nesta área de formação e que, devido à grande procura e à excelente qualidade dos formadores, o objetivo é organizar mais edições”.

“A armadilhagem fotográfica é uma ferramenta cuja utilização tem vindo a aumentar consideravelmente, sobretudo na última década, para estudar e monitorizar populações de fauna silvestre, principalmente mamíferos e aves. Apesar de muitos dos utilizadores desta técnica saberem manipular o equipamento e colocá-lo no terreno, existem sempre alguns princípios básicos que desconhecem e que os impedem de obter um melhor rendimento e melhores resultados. Depois, a maior limitação, a meu ver, surge quando é necessário tratar a informação recolhida pelas máquinas. A técnica apresenta um potencial enorme, as possibilidades de tratamento de informação são imensas e os tipos de estudo que se podem levar a cabo são muito variados. O objetivo deste curso foi, assim, tentar colmatar essas lacunas, dando aos participantes bases sólidas para compreender o funcionamento das máquinas de armadilhagem fotográfica e capacitá-los para poderem tratar e analisar os dados recolhidos no âmbito dos seus estudos, projetos e/ou programas de monitorização de espécies de fauna silvestre”, destacou ainda.

O módulo básico do curso foi ministrado por Pablo Palencia, do Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos (IREC, CSIC-UCLM-JCCM), Universidad de Castilla-La Mancha, Ciudad Real, Espanha, e os módulos avançados pelo Doutor Pelayo Acevedo, também do Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos (IREC, CSIC-UCLM-JCCM), e pela Doutora Patricia Mateo-Tomás, da Unidad Mixta de Investigación en Biodiversidad (UMIB, UO-CSIC-PA), Universidad de Oviedo, Oviedo, Espanha.

No último dia do curso, foi realizada uma visita ao Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais (CIPT), localizado na sede da Palombar, na aldeia de Uva (Vimioso), e ainda ao Campo de Alimentação de Aves Necrófagas (CAAN) de Ifanes (Miranda do Douro) gerido pela associação no âmbito do projeto LIFE Rupis.

Visita ao Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais (CIPT)

Visita ao Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais (CIPT)

Visita a um pombal tradicional em Uva (Vimioso)

Visita a um pombal tradicional em Uva (Vimioso)

O curso decorreu  entre os dias 11 e 14 de fevereiro de 2019, no PINTA - Parque Ibérico de Natureza e Aventura de Vimioso, no distrito de Bragança. Teve como principal objetivo dotar os participantes de conhecimentos técnicos e científicos sobre o uso da armadilhagem fotográfica como ferramenta de estudo e monitorização de populações de fauna silvestre, em particular mamíferos e aves.

A Palombar faz um agradecimento especial a todos os formadores e formandos, bem como às entidades que deram todo o apoio à realização do curso, nomeadamente a Câmara Municipal de Vimioso, Vales de Vimioso, PINTA – Parque Ibérico de Natureza e Aventura de Vimioso e Bombeiros Voluntários de Vimioso.

Açor beneficia da recuperação de pombais tradicionais no Nordeste Transmontano

O açor (Accipiter gentilis), uma espécie com estatuto de conservação “Vulnerável” de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal devido à sua população reduzida (inferior a 1 000 indivíduos maturos), tem beneficiado da recuperação e manutenção de pombais tradicionais promovidas pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural no Nordeste Transmontano, por iniciativa própria, ou no âmbito de projetos nos quais é parceira, nomeadamente no projeto LIFE Rupis, e ainda no Grupo Nordeste.

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Um exemplar desta espécie foi observado no dia 6 de fevereiro, num dos pombais recuperados e geridos pela Palombar no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança. O açor é um predador essencialmente ornitófago e os pombos (Columba livia) são uma presa muito frequente na sua dieta, assim como de outras espécies de aves de rapinas ameaçadas no território nacional, nomeadamente do falcão-peregrino (Falco peregrinus) e da águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), que é alvo de conservação do projeto LIFE Rupis, entre outras.

A recuperação de pombais tradicionais, a sua repovoação com pombos saudáveis, bem como a sua manutenção e controlo sanitário, tem sido uma área de atuação central da Palombar, que tem como objetivo associar o restauro do património arquitetónico rural à conservação da Natureza e da biodiversidade.

A Palombar considera que estas estruturas têm um valor cultural e ecológico fundamental e único, pelo que devem ser preservadas, de modo a permanecerem funcionais. O pombal tradicional é um elemento icónico indissociável da paisagem transmontana e essencial ao aumento da disponibilidade de alimento para várias espécies selvagens ameaçadas.

Nos últimos anos, a associação tem recuperado dezenas de pombais tradicionais em Trás-os-Montes e assegurado o seu repovoamento e manutenção, que são indispensáveis para garantir que estas estruturas sejam viáveis e cumpram a sua função ecológica de promover a conservação da biodiversidade. Tão importante quanto recuperar os pombais tradicionais, é mantê-los ao longo do tempo e este tem sido precisamente um dos trabalhos centrais da associação.  

O exemplar de açor observado pelos técnicos da Palombar no passado dia 6 de fevereiro estava dentro de um dos pombais geridos pela associação. Esta é uma situação que não deve ocorrer e que representa uma problemática com a qual a Palombar se tem confrontado e procurado solucionar, no âmbito da gestão de pombais tradicionais.

Os pombos, que são fundamentais para assegurar a preservação de várias espécies de aves ameaçadas, idealmente, deverão ser caçados fora dos pombais e as aves predadoras não devem ter acesso ao interior dessas estruturas. De resto, a problemática da predação de pombos dentro dos pombais coloca-se não só em relação às aves, como também a pequenos mamíferos, como doninhas e fuinhas.

De forma a solucionar este problema, a Palombar tem adotado várias medidas para evitar a entrada de predadores (quer por via aérea, quer por via terrestre) dentro dos pombais tradicionais.

No que se refere às aves, a principal medida implementada tem sido reduzir o tamanho das entradas dos pombais. Tradicionalmente, os pombais já têm entradas mais pequenas exatamente para evitar que espécies de aves de rapina possam entrar nessas estruturas, contudo, ainda assim, algumas aves de menor porte conseguem aceder ao seu interior, pelo que é necessário diminuir ainda mais essas entradas até ao limite que permita a entrada dos próprios pombos.

Relativamente aos pequenos mamíferos, a associação tem assegurado a preservação das abas dos pombais (para dificultar a entrada no seu interior), a manutenção e a qualidade do reboco (para tornar mais uniforme a parede dos pombais e dificultar a sua escalada), bem como a limpeza de matos e a poda de árvores num raio à volta do pombal (para evitar que os animais usem arbustos para treparem), de modo a impedir que pequenos mamíferos possam entrar no seu interior.

A recuperação e manutenção de pombais tradicionais tem já dado provas confirmadas de que é uma medida fundamental para aumentar a disponibilidade alimentar para várias espécies de aves de rapina ameaçadas em Portugal, assegurando, desta forma, o seu sucesso reprodutor e o aumento das suas populações. Esta continuará a ser, desta forma, uma área central de atuação da Palombar.

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Palombar lança website do projeto ‘ConnectNatura’ em prol da conservação das aves necrófagas

A Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural acaba de lançar o website do seu projeto 'ConnectNatura' (www.connectnatura.pt). Esta plataforma foi criada com o objetivo de divulgar o projeto, dar a conhecer de forma aprofundada as espécies de aves necrófagas alvo de conservação, alertar para as ameaças que enfrentam estes animais, promover um maior conhecimento e sensibilização para a importância destas aves e atualizar toda a informação sobre a implementação do projeto.

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O 'ConnectNatura' é financiado pelo Fundo Ambiental - Ministério do Ambiente e tem como parceiro o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

José Pereira, presidente da Palombar, destaca que este projeto “veio reforçar e alargar o trabalho que a associação tem desenvolvido nos últimos anos no âmbito da conservação das aves necrófagas, enquadrado num outro projeto transfronteiriço, o LIFE Rupis (www.rupis.pt), e é fundamental para criar condições de retorno e/ou fixação destas espécies em duas Zonas de Proteção Especial (ZPE) da Rede Natura 2000”.

Sublinha ainda que o “website do projeto é uma ferramenta importante de educação e sensibilização para as questões relacionadas com a conservação das aves necrófagas em Portugal, sendo fundamental para aumentar o conhecimento sobre a importância destas espécies, bem como sobre as ameaças que enfrentam, com o objetivo de promover a sua proteção e uma melhor aceitação social das mesmas”.

O projeto 'ConnectNatura' visa criar condições para recuperar e reforçar as populações de aves necrófagas em duas Zonas de Proteção Especial (ZPE) da Rede Natura 2000, classificadas ao abrigo da Diretiva Aves, e que estão localizadas no norte de Portugal, nomeadamente as ZPE ‘Serra do Gerês’ e ‘Montesinho/Nogueira’. Estas duas ZPE estão também inseridas em Sítios de Importância Comunitária (SIC), mais especificamente os SIC ‘Peneda/Gerês’ e ‘Montesinho/ Nogueira’.

As ZPE abrangidas pelo projeto ConnectNatura integram ainda a Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP), apresentando o estatuto de Parque Nacional, no caso da Serra do Gerês, e Parque Natural, no que se refere a Montesinho.

A Rede Natura 2000 é uma rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis no espaço da União Europeia. Resulta da aplicação de duas Diretivas comunitárias distintas: a Diretiva Aves, relativa à conservação das aves selvagens, e a Diretiva Habitats, relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e flora selvagens.

As medidas a implementar no âmbito deste projeto serão dirigidas a espécies estritamente e parcialmente necrófagas que constam do Anexo I da Diretiva Aves e que possuem um estatuto de conservação desfavorável em Portugal, em particular o abutre-preto (Aegypius monachus), o britango (Neophron percnopterus), o grifo (Gyps fulvus) e a águia-real (Aquila chrysaetos).

Britango e grifo.

Britango e grifo.

As ações previstas têm como objetivo melhorar as condições de alimentação e de aceitação social, de forma a reverter as tendências populacionais negativas e a promover o retorno e/ou a fixação dessas aves nesses territórios, os quais constituem áreas de presença histórica. Para além disto, o projeto contribuirá para reforçar a conectividade entre populações, através de corredores entre áreas da Rede Natura 2000, e para restaurar cadeias tróficas ancestrais.

Outras espécies de aves parcialmente necrófagas, como o milhafre-real (Milvus milvus), que também apresenta um estatuto de conservação desfavorável no nosso país (sobretudo a sua população residente) e o milhafre-preto (Milvus migrans) também serão beneficiadas pelas ações que serão implementadas no terreno.

Em Portugal, as espécies de aves necrófagas, em particular as espécies-alvo deste projeto, apresentam, no geral, um estatuto de conservação delicado, encontrando-se numa situação populacional desfavorável, o que reflete a importância da implementação deste projeto de conservação da Palombar.

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Petição lançada a nível europeu quer impor regras às multinacionais e assegurar direitos dos cidadãos

Dezenas de associações, organizações não governamentais, entidades e movimentos sociais de defesa dos cidadãos, do comércio justo e do ambiente lançaram, no dia 22 de janeiro, a nível europeu, a petição “Direitos para as pessoas, regras para as multinacionais – STOP ISDS”, que tem como principal objetivo acabar com os privilégios dos grandes grupos económicos transnacionais que colocam em causa os direitos dos cidadãos, o meio ambiente e o funcionamento dos Estados democráticos e defender os direitos das populações.

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A petição exige que a União Europeia (UE) e todos os seus Estados-membros deixem de celebrar quaisquer novos acordos de comércio e investimento que incluam mecanismos ISDS (Investor-State Dispute Settlement) ou similares e que os atuais acordos que incluem estes mecanismos devem ser renegociados ou cessar a sua vigência.

O documento exorta ainda a UE a envolver-se de forma construtiva no Tratado que está a ser discutido no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre empresas transnacionais e Direitos Humanos.

 O que é o ISDS?

O ISDS (Investor-State Dispute Settlement/“Resolução de Diferendos entre Investidores e Estados”) é um mecanismo de resolução de litígios entre investidores estrangeiros e Estados, um instrumento de direito internacional privado que é incorporado em acordos e tratados realizados entre países e empresas transnacionais. Existe à margem dos tribunais nacionais e coloca em causa a soberania dos povos e a democracia.

Este instrumento está disponível exclusivamente para investidores estrangeiros processarem os Estados, os quais se submetem livremente a este mecanismo, através de acordos de investimento que assina. Ou seja, são os próprios Estados, através dos seus governos, que outorgam às multinacionais esses direitos e meios especiais, limitando o seu próprio poder legislativo e colocando em risco os recursos e os direitos dos cidadãos.

Ao abrigo deste mecanismo altamente benéfico para as multinacionais e prejudiciais para o Estado, as empresas contornam as justiças nacionais e “escapam” a julgamentos e condenações quando em causa estão, por exemplo, ilícitos laborais, crimes ambientais, usurpação de poder, ações lesivas para o Estado, etc. Esta ferramenta permite às empresas exigir indemnizações multimilionárias sempre que consideram que medidas democraticamente adotadas pelos Estados podem diminuir os seus lucros.

Em causa está, desta forma, um mecanismo exclusivo criado à margem da Lei de cada país para os investidores processarem os Estados e tirarem proveito disso. Quando as multinacionais acionam este mecanismo, muitas vezes os Estados são prejudicados porque entram num sistema de disputa processual muito dispendioso (pode custar milhões de euros), burocrático e obscuro que acaba quase sempre por decidir a favor das grandes empresas.

Quando há litígio, a decisão não é tomada por um tribunal público e legitimado, mas sim por tribunais arbitrais privados, compostos por três árbitros escolhidos pelas partes e que podem assumir rotativamente o papel de acusação, defesa ou de decisão. As sessões são secretas, muitas vezes realizadas em quartos de hotel, e não é possível recorrer das decisões, não existindo uma instância de recurso.

Este é um mecanismo que coloca em causa não só os Direitos Humanos, como também o Ambiente, visto que as empresas transnacionais atuam não só ao nível dos recursos humanos, como também exploram os recursos naturais.

Há ainda outros mecanismos similares, mas com nomes distintos, como o ICS (Investment Court System/"Sistema de Tribunais de Investimento") ou o MIC (Multilateral Investment Court/"Tribunal Multilateral de Investimento").

O ISDS começou a ser incluído em acordos de investimento entre países a partir dos finais de 1960, com o objetivo de proteger os investimentos privados em países ditatoriais ou corruptos, mas foi a partir de 1990 que aumentaram de forma exponencial os processos ISDS, sendo hoje conhecidos mais de 560 casos a nível mundial.

Atualmente, há centenas de processos ISDS a decorre em vários países a nível europeu e mundial que estão a colocar em causa a soberania das populações, os Direitos Humanos e o Planeta. Os governos não devem celebrar, em nome dos cidadãos, acordos que incluam mecanismos ISDS!

Há que dizer BASTA!

A Palombar diz STOP ISDS, pelos Direitos Humanos, pelo Ambiente!

Assine já a petição aqui!

Voluntariado na Palombar em Trás-os-Montes: “Fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades”

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural acolheu a voluntária francesa Juliette Verduzier, entre os dias 23 de julho de 2018 e 23 de janeiro de 2019, ao abrigo do projeto de voluntariado intitulado "Promoção e Valorização do Património Rural e Ambiental em Portugal", desenvolvido em parceria com a associação Union Rempart, em França, no âmbito do Serviço Cívico Francês.

Juliette Verduzier

Juliette Verduzier

Juliette Verduzier é licenciada em Design, tem 21 anos, e as suas principais áreas de interesse são a natureza, a ruralidade, as artes, a vida comunitária e as construções ecológicas. Durante a sua missão de voluntariado na Palombar, a voluntária residiu na aldeia de Uva (Vimioso), distrito de Bragança, e participou em vários projetos de dinamização e conservação do mundo rural, nomeadamente em iniciativas de recuperação e manutenção do património construído, campos de trabalho voluntário com foco em escavações arqueológicas, monitorização de fauna silvestre, recolha de memórias locais, vigilância de incêndios, manutenção de viveiros e atividades culturais organizadas pela associação.

No âmbito do festival L Burro i L Gueiteiro de 2018, Juliette Verduzier esteve integrada na equipa de logística do evento e teve a possibilidade de contactar com as comunidades e a cultura locais. “Quando cheguei, estava a decorrer este festival, que me proporcionou uma entrada festiva no mundo transmontano, onde pude colaborar através da instalação de barracas, participar em caminhadas com burros e descobrir a música da gaita de fole”, descreve a voluntária num testemunho que escreveu sobre a sua experiência em Portugal.

Juliette Verduzier foi também monitora nos 53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI), dedicados à escavação arqueológica, que se realizaram entre os dias 20 de agosto e 14 de setembro de 2018, no Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova (Miranda do Douro). Deu apoio nas atividades de escavações arqueológicas e coordenou grupos nas atividades de lazer. Estes CTVI tiveram como parceiros a Câmara Municipal de Miranda do Douro, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e também a Union Rempart. “Esta foi uma experiência muita enriquecedora em que pude aprender novas valências”, afirmou.

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

A voluntária realizou uma recolha de memórias dos habitantes locais sobre os pombais tradicionais, através do registo de testemunhos orais. Ajudou igualmente em trabalhos de recuperação, manutenção e repovoamento dessas estruturas arquitetónicas, nomeadamente em Miranda do Douro, realizados pela equipa da Palombar. “Gostei particularmente de aprender sobre técnicas tradicionais de construção e de descobrir a sabedoria local que estas revelam. Compreendi ainda a importância de recuperar os pombais tradicionais, dando-lhes uma nova utilidade. A Palombar utiliza esses pombais como uma ‘ferramenta’ de conservação da águia-de-Bonelli, que se alimenta de pombos”, disse Juliette.

Recuperação de um pombal tradicional em Miranda do Douro.

Recuperação de um pombal tradicional em Miranda do Douro.

Com proprietária de pombais tradicionais.

Com proprietária de pombais tradicionais.

A missão voluntária na Palombar também incluiu a participação em ações de monitorização da fauna selvagem, através da colocação de máquinas de fotoarmadilhagem, censos de perdiz e coelho-bravo, bem como a manutenção de Campos de Alimentação para Aves Necrófagas (CAAN). “Durante a minha missão, acompanhei vários técnicos da Palombar durante diversos trabalhos realizados na região de Trás-os-Montes, nomeadamente em atividades de monitorização de espécies de animais no campo. Descobri, ao mesmo tempo, a diversidade das paisagens transmontanas: a sua fauna e flora, sobre as quais aprendi muito com as preciosas explicações dadas pelos biólogos da equipa”, sublinhou a voluntária.

Esteve ainda envolvida na vigilância de incêndios e na manutenção de sementeiras no viveiro florestal da Palombar. Durante a missão de voluntariado, “fui sensibilizada para questões relacionadas com a falta de água e com os incêndios, problemas que não temos na minha região em França”, destacou Juliette Verduzier.

Participou também no intercâmbio ‘Melhores Práticas para um Futuro Ético e Sustentável através do Turismo Rural’, promovido pelo Centro de Acolhimento do Burro e pela AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. Este projeto de intercâmbio sobre boas práticas de turismo ético e sustentável foi financiado pelo programa Erasmus+ Juventude em Ação e teve como parceiros o Linking Tourism & Conservation (Noruega) e a Cryosanabria (Espanha). Decorreu entre os dias 8 e 20 de novembro de 2018 e contou com participantes de várias nacionalidades.

A voluntária desenvolveu, adicionalmente, um Projeto Individual, que consistiu na criação de conteúdos e produtos de design direcionados para a divulgação dos trabalhos de recuperação e manutenção dos pombais tradicionais e da sua ecologia, bem como para a consciencialização sobre os perigos subjacentes ao uso de venenos para matar animais.

Desenho para GIF sobre pombais.

Desenho para GIF sobre pombais.

Desenho para GIF sobre uso de veneno.

Desenho para GIF sobre uso de veneno.

A jovem francesa afirmou que a missão de voluntariado na Palombar foi muito “enriquecedora” e ajudou a “desenvolver capacidades pessoais e a ganhar independência”. Destacou ainda que estar presente ativamente numa comunidade em Trás-os-Montes foi uma forma de “lutar contra a desertificação rural” e que “fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades”.

Leia na íntegra o testemunho de Juliette Verduzier sobre a sua missão de voluntariado na Palombar em Trás-os-Montes.

 TESTEMUNHO

Depois de terminar a minha licenciatura em Design (interior, cenografia e paisagismo), senti a necessidade de experimentar outras formas de aprender fora da Escola Superior onde estudei, no terreno mais concreto, a fazer coisas diferentes.  

Ao procurar por novas experiências, descobri o Serviço Cívico Francês e a missão, em Portugal, proposta pela Union Rempart, em parceria com a Palombar, intitulada "Promoção e Valorização do Património Rural e Ambiental em Portugal". Pareceu-me a oportunidade perfeita para participar ativamente em iniciativas de recuperação do património rural e atuar realmente no terreno, bem como para perceber melhor as dinâmicas do mundo rural, que me interessam muito, estando inserida numa comunidade.

Cheguei à aldeia de Uva, no concelho de Vimioso, distrito de Bragança, no dia 23 de julho de 2018, em pleno verão, ou seja, no período do ano mais ativo da associação. A Palombar organiza, todos os anos, o festival itinerante L Burro i L Gueiteiro, em parceria com a AEPGA - Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. Quando cheguei, estava a decorrer este festival, que me proporcionou uma entrada festiva no mundo trasmontano, onde pude colaborar através da instalação de barracas, participar em caminhadas com burros e descobrir a música da gaita de fole. 

O verão é também a altura do ano em que decorrem os Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI) organismos pela Palombar e nos quais participei como animadora. O programa dos CTVI em que participei incluía escavar ruínas romanas e visitar a região de Trás-os-Montes com grupos internacionais. No âmbito dos CTVI, fiquei responsável, pela primeira vez, pela coordenação de um grupo de pessoas, tendo sido esta uma experiência muita enriquecedora em que pude aprender novas valências.

Durante a minha missão, gostei particularmente de aprender sobre técnicas tradicionais de construção e de descobrir a sabedoria local que estas revelam. Os pombais (que dão origem ao nome da associação Palombar, que significa pombal em Mirandês) são um símbolo do uso eficiente e sustentável dos recursos naturais, nomeadamente da terra. Foi importante para mim criar ilustrações que revelam para que servem os pombais, bem como o valor deste património local. Também participei na recolha de memórias dos donos de pombais, os quais explicaram a utilidade dessas estruturas no passado.

Compreendi ainda a importância de recuperar os pombais tradicionais, dando-lhes uma nova utilidade. A Palombar utiliza esses pombais como uma ‘ferramenta’ de conservação da águia-de-Bonelli, que se alimenta de pombos. Além de recuperar e manter essas estruturas, a associação repovoa-os com pombos saudáveis, alimenta-os, e cuida também da sua saúde. Aproveita ainda o estrume produzido pelos pombos, que é transformado em fertilizante. 

No âmbito da minha missão, acompanhei vários técnicos da Palombar durante diversos trabalhos realizados na região de Trás-os-Montes, nomeadamente em atividades de monitorização de espécies de animais no campo. Descobri, ao mesmo tempo, a diversidade das paisagens transmontanas: a sua fauna e flora, sobre as quais aprendi muito com as preciosas explicações dadas pelos biólogos da equipa, as suas terras cultivadas, até mesmo em lugares muito inacessíveis, e o seu horizonte sem fim. Nesta paisagem onde predomina a agricultura familiar de subsistência, há um ritmo de vida marcado por diferentes colheitas e produções da terra.

Viver nesse “mundo”, conhecer as suas gentes, aprender a sua língua e descobrir o seu modo de vida proporcionou-me uma imensa alegria. Esse processo de adaptação a uma outra cultura é muito enriquecedor e permite desenvolver capacidades pessoais e ganhar independência.

Fui muito bem acolhida pela população local. Senti, todos os dias, que os habitantes de Uva estavam contentes por ver pessoas novas na sua aldeia, sobretudo jovens. A minha presença em Uva, assim como a de outros voluntários e de toda a equipa da Palombar, ajuda muito a dinamizar e a dar vida à aldeia, bem como a lutar contra a desertificação rural. Fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades.

 Juliette Verduzier, 18 de dezembro de 2018

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Abutre-preto devolvido à Natureza volta a “abraçar” a liberdade no distrito de Bragança

Um exemplar de abutre-preto (Aegypius monachus) foi devolvido à Natureza esta quarta-feira, 23 de janeiro, no Miradouro do Carrascalinho, na freguesia de Lagoaça e Fornos, no concelho de Freixo de Espada à Cinta, distrito de Bragança, por vários técnicos e especialistas em fauna selvagem.

Abutre-preto ( Aegypius monachus ).

Abutre-preto (Aegypius monachus).

A devolução desta ave à Natureza só foi possível depois de a espécie ter passado por um processo de recuperação que envolveu várias entidades. O animal juvenil foi encontrado muito debilitado fisicamente no início de outubro de 2018 no centro de Valongo, junto a uma rotunda numa zona urbana, um local improvável, tendo sido levado para o Parque Biológico de Gaia, no concelho de Vila Nova de Gaia, onde foi primeiramente acolhido. Posteriormente, foi transferido para o Centro de Recuperação de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS/HV/UTAD), em Vila Real.

A ave terminou o seu processo de recuperação no Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal (CIARA), em Felgar, Torre de Moncorvo. Antes de ser libertado, e para assegurar o seu seguimento e monitorização, foi colocado neste abutre-preto uma anilha e um transmissor GPS fornecido pela Vulture Conservation Foundation (VCF).

A marcação de aves com transmissores GPS permite conhecer em detalhe o movimento destes animais e obter um volume de informação muito grande e pormenorizado. Através da marcação das aves com estes dispositivos, tem sido possível realizar avanços significativos no que se refere ao conhecimento das rotas de migração das espécies estudadas, principalmente de aves que efetuam grandes movimentos migratórios. Estes dispositivos permitem ainda identificar locais em que ocorrem elevadas taxas de mortalidade das aves, como, por exemplo, linhas elétricas, onde os animais morrem muitas vezes por colisão e/ou eletrocussão. O uso de transmissores GPS permite também obter um conhecimento mais profundo das diversas espécies de aves e respetivas populações, como as suas rotas migratórias, longevidade, mortalidade, territorialidade, comportamento alimentar, entre outros aspetos. Todas estas informações são essenciais para promover a sua conservação.

De forma a aproveitar este momento único de devolução de um animal no seu meio natural para sensibilizar para a sua importância e papel fundamental nos ecossistemas, no âmbito da ação E3 do projeto LIFE Rupis, uma turma do 4.º ano do agrupamento de escolas de Mogadouro, com 20 alunos, foi convidada a presenciar a libertação da ave. O transporte dos alunos até ao Miradouro do Carrascalinho foi assegurado pela Câmara Municipal de Mogadouro. 

Alunos do 4.º ano do agrupamento de escolas de Mogadouro.

Alunos do 4.º ano do agrupamento de escolas de Mogadouro.

Também estiveram presentes representantes de várias entidades e associações que trabalham na área da conservação e proteção da biodiversidade, nomeadamente da Palombar, da ATNatureza, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)/Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), em representação do projeto LIFE Rupis, do CRAS/HV/UTAD, do Parque Biológico de Gaia, do CIARA, da Associação de Municípios do Baixo Sabor e da Oriolus. A comunicação social também marcou presença, nomeadamente a RTP e a SIC. No total, presenciaram a devolução do animal à Natureza cerca de 50 pessoas.

Participantes de várias entidades.

Participantes de várias entidades.

Sobre o abutre-preto

O abutre-preto (Aegypius monachus) é uma ave de grandes dimensões, apresentando uma envergadura que pode atingir os 3 metros. Mesmo a uma grande altura, é possível ver a sua grande silhueta escura a planar nos céus. Tem um estatuto de conservação “Criticamente em Perigo” no território nacional, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Esta ave prefere viver em locais longínquos próximos a matagais arborizados, principalmente junto a encostas bastante íngremes em áreas montanhosas ou em vales de rios. Tem hábitos alimentares quase exclusivamente necrófagos. Carcaças de médio e grande porte de ovelhas, cabras, vacas, cervídeos e coelhos fazem parte da sua dieta. O abutre-preto alimenta-se sozinho ou em pequenos grupos e pode regressar à mesma carcaça durante vários dias.

Esta espécie faz ninhos quase exclusivamente em árvores e pode nidificar sozinha ou em colónias. A relação entre o casal pode durar para a toda a vida e ambos os progenitores cuidam da cria. Somente um ovo é posto por cada época reprodutiva, que ocorre entre fevereiro e início de março.

O abutre-preto está presente no Parque Natural do Douro Internacional. Em 2012, foi registado um casal nidificante da espécie nesta região, onde se estabeleceu e permanece desde então. Esta ave costuma também ser avistada no Parque Nacional da Peneda-Gerês e no Parque Natural de Montesinho, sozinho ou juntamente com bandos de grifos.

O abutre-preto beneficia de ações do projeto LIFE Rupis e é uma das espécies-alvo de conservação do projeto ConnectNatura (www.connectnatura.pt) da Palombar.

Sobre o LIFE Rupis

O LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro (www.rupis.pt) é um projeto de conservação transfronteiriço, com a duração de quatro anos (2015 – 2019), cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia.

O projeto LIFE Rupis é coordenado pela Sociedade Portuguesa Para o Estudo das Aves (SPEA) e conta com vários parceiros nacionais e internacionais, entre os quais a Palombar.

O projeto, que decorre em território português e espanhol, mais concretamente na Zona de Proteção Especial (ZPE) Douro Internacional e Vale do Águeda e na Zona de Especial Protección para las Aves (ZEPA) Arribes del Duero, pretende implementar ações que visam reforçar as populações de duas espécies prioritárias da Diretiva Aves nesta região, nomeadamente o britango (Neophron percnopterus) e a águia-perdigueira (Aquila fasciata), através da redução da sua mortalidade e do aumento do seu sucesso reprodutor.

As ações do LIFE Rupis beneficiam também outras espécies com estatuto de conservação igualmente desfavorável como é o caso do abutre-preto (Aegypius monachus) e do milhafre-real (Milvus milvus). As populações destas espécies encontram-se em declínio, estando globalmente ameaçadas, em particular na Península Ibérica.

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Uso de veneno: o feitiço vira-se contra o feiticeiro

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Certo dia, o sr. António ficou danado porque uma raposa, mais uma vez, assaltou-lhe o galinheiro. Revoltado com a maldita, decide acabar de vez com o problema e envenená-la. No dia seguinte, vai ver ansioso se o plano resultou. Ao aproximar-se do local onde deixou o veneno, observa a bonita pelagem da raposa, que se encontra estendida no chão, e enche-se de satisfação. Entretanto, ao chegar mais perto do animal, verifica que este não foi o único a morrer. Um abutre, um britango e o cão da sua filha também foram vítimas do veneno. O sr. António percebeu, desta forma, que o veneno é “cego” e não atua de forma seletiva, podendo matar vários animais, inclusive os seus. O “feitiço” que lançou virou-se contra ele.

GIF | Juliette Verduzier Texto | Luís Queirós, Uliana de Castro e Juliette Verduzier

VENENO

 O que é?

Qualquer substância com características tóxicas que, dependendo da dose e do modo de utilização, seja capaz de causar danos e/ou a morte de um organismo vivo.

O uso de venenos está completamente proibido pelas legislações nacional e europeia e é uma prática irresponsável que pode ter consequências muito graves para a biodiversidade e para a saúde pública.

Porquê e para quê se utiliza?

A principal motivação para o uso de venenos é a eliminação de animais considerados prejudiciais a atividades humanas como a caça, a pecuária ou a agricultura. No entanto, o uso de venenos é um método não seletivo, que pode afetar muitas espécies para as quais não é dirigido, incluindo animais domésticos e espécies ameaçadas de extinção.

VENENO: uma ameaça à Biodiversidade.

O uso ilegal de iscos envenenados, associado à falta de controlo sobre a venda de venenos e à utilização de muitas substâncias tóxicas, comercializadas legalmente no mercado, são fatores que geram um forte impacto negativo na fauna.

As espécies mais vulneráveis ao uso de venenos são aquelas que têm hábitos alimentares necrófagos e que, por se alimentarem de animais mortos, acabam por serem vítimas de envenenamento em cadeia. Os abutres são o grupo de espécies potencialmente mais afetado pelo uso destas substâncias.

O envenenamento constitui um fator de mortalidade não natural de grande relevância, dado que produz um impacto dentro da área de distribuição regular das espécies afetadas e pode contribuir de forma significativa para a diminuição das suas populações no nosso território ou mesmo para o seu desaparecimento.

VENENO: um risco para a Saúde Pública.

A falta de controlo eficaz e a facilidade com que é possível adquirir venenos que já foram proibidos em Portugal há vários anos podem provocar consequências nefastas que vão muito além da fauna silvestre.

Muitas das substâncias utilizadas em venenos podem persistir no meio ambiente por meses ou anos e assim entrar na cadeia alimentar por via indireta. A contaminação de fontes de água utilizadas para consumo humano ou rega também é uma ameaça muito real.

Os venenos também afetam espécies de caça que são consumidas habitualmente pelos humanos, como os javalis. Corremos, portanto, o risco de incluir na nossa alimentação estas substâncias altamente tóxicas, o que pode provocar sérios problemas de saúde a quem as consome.

O Programa Antídoto

O Programa Antídoto é uma iniciativa que pretende combater o uso ilegal de venenos, procurando conhecer a dimensão do problema e as suas consequências, de forma a implementar medidas para as solucionar ou minimizar.

 Os objetivos do Programa Antídoto são:

· Conhecer a dimensão real do uso de venenos em Portugal;

· Conhecer as causas, motivações e problemas que estão na origem do uso de venenos;

· Contribuir para a resolução do problema, promovendo boas práticas agropecuárias e cinegéticas;

· Avaliar o impacto do uso de venenos nas populações de animais silvestres;

· Estabelecer medidas de controlo do uso de substâncias tóxicas;

· Combater a atual impunidade face a casos de envenenamento;

· Contribuir para a educação acerca do uso de venenos;

· Promover a conservação de várias espécies e respetivos ecossistemas.

 O que fazer quando encontrar um animal envenenado?

1. Contacte imediatamente as autoridades competentes. Mesmo que o animal já se encontre morto, a utilização de venenos constitui um crime que deve ser reportado. SEPNA – Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente da Guarda Nacional Republicana – 21 750 30 80 Linha SOS Ambiente – 808 200 520

2. Permaneça no local até as autoridades chegarem.

3. Não toque no animal e não deixe que outras pessoas se aproximem. Os cadáveres e amostras devem ser recolhidos apenas pelas autoridades.

AR diz não à proibição de medicamento veterinário fatal para abutres e águias e deixa decisão nas mãos da DGAV

Portugal perdeu esta sexta-feira, 11 de janeiro, uma oportunidade de dar o exemplo em matéria de conservação da natureza e salvaguarda da saúde pública. A Assembleia da República (AR) decidiu hoje não proibir o diclofenac, um medicamento veterinário fatal para abutres e águias.

Com esta decisão, que contraria uma resolução da própria Assembleia em abril de 2018, mantém-se viva uma séria de ameaça a várias espécies protegidas e à saúde pública no país. Evitar o sério risco que este fármaco representa continua, assim, nas mãos da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), que tem em apreciação um pedido de comercialização já há mais de dois anos.

Grifo ( Gyps fulvus )

Grifo (Gyps fulvus)

José Pereira, presidente da Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, considera que "a decisão de não proibir a comercialização do diclofenac para uso veterinário é incompreensível, tendo em conta que já existem evidências científicas robustas de que este medicamento é fatal para abutres e águias" e salienta "que os procedimentos mitigadores do seu impacto nas aves necrófagas são falíveis".

"Esta decisão pode colocar em causa todo o trabalho que tem sido desenvolvido por diversas associações e entidades em prol da conservação das aves necrófagas com estatuto de conservação desfavorável em Portugal, porque continua a colocar em risco estas aves que são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas", acrescenta ainda.

“Não se percebe como é que não é proibida uma substância que é perigosa e para a qual existem alternativas seguras”, diz Joaquim Teodósio, coordenador do Departamento de Conservação Terrestre da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA). “Infelizmente, contra o bom senso e a precaução valeram os interesses políticos e a força dos números”, acrescenta.

A DGAV está desde 2016 a avaliar um pedido de autorização de comercialização de um medicamento veterinário para uso pecuário contendo diclofenac. Exige-se agora à DGAV que, tendo em consideração o melhor conhecimento científico existente, e respeitando o princípio da precaução, não aprove este pedido de comercialização, evitando o consumar de um risco real, iminente e crítico para a conservação de várias espécies protegidas e o consequente impacto na saúde pública em Portugal.

Ao não proibir o diclofenac, os deputados falharam nas suas obrigações para com o povo português e descuraram os compromissos assumidos a nível internacional, de conservação da natureza. Ao não proibir este fármaco perigoso, Portugal arrisca-se – caso a DGAV autorize medicamentos contendo diclofenac - a deixar de ser um refúgio para espécies protegidas como o abutre-preto, o britango e a águia-imperial-ibérica, que estão ameaçadas a nível europeu e mundial, e das quais existem populações importantes no nosso país.

Existem outros anti-inflamatórios e analgésicos que são inócuos para estas aves, e que poderiam ser usados mesmo que o diclofenac fosse proibido.

“O resultado da votação de hoje deixa-nos perplexos e muito entristecidos. Portugal acabou de perder uma excelente oportunidade para dar um exemplo a toda a Europa”, diz Iván Ramírez, diretor de Conservação da BirdLife Europe & Central Asia.

Desde 2014 que as Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) nacionais e internacionais têm vindo a alertar as autoridades competentes para os possíveis impactos deste medicamento sobre as aves necrófagas (abutres e algumas espécies de águias), tendo apelado ao Governo Português para que não autorize a utilização desta substância em território nacional ao nível da pecuária.

No seguimento destas preocupações, a Assembleia da República aprovou em abril de 2018 o Projeto de Resolução 1433/XIII apresentado pelo PAN, que recomenda ao Governo Português que não autorize a comercialização de medicamentos veterinários com diclofenac. A decisão de hoje contraria esta resolução, abrindo a porta a que o diclofenac venha a ser usado na atividade pecuária nacional.

“Estamos desiludidos com esta decisão, que não serve nem as aves nem as pessoas, e pela qual podemos todos vir a pagar caro. Os abutres têm um papel importantíssimo no controlo de doenças nos nossos campos – sem eles, corremos o risco de enfrentar graves problemas de saúde pública”, diz Joaquim Teodósio. “Resta-nos agora esperar que a DGAV decida a favor da saúde dos nossos campos", conclui.

Mais informações:

Nota de imprensa da BirdLife International alertando para os perigos do diclofenac.

Peritos em abutres pedem proibição global do diclofenac veterinário:.

Moção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) apelando à proibição do diclofenac para uso veterinário.

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Assembleia da República debate proibição de medicamento veterinário fatal para abutres e águias

A Assembleia da República vai discutir, no próximo dia 10 de janeiro, duas propostas de projeto de Lei, submetidas pelo Partido Ecologista Os Verdes (Projeto de Lei n.º 885/XIII/3.ª) e pelo PAN - Pessoas, Animais e Natureza (Projeto de Lei n.º 1056/XIII/4.ª), no sentido de proibir a comercialização e uso em Portugal de medicamentos veterinários que utilizem na sua formulação o diclofenac. Caso esta substância – à qual existem alternativas seguras – seja autorizada e utilizada em Portugal, terá um impacto potencialmente devastador em várias espécies protegidas de aves necrófagas e também nos ecossistemas onde desempenham um importante papel de controlo de doenças.

Britango ( Neophron percnopterus ) e grifo ( Gyps fulvus ).

Britango (Neophron percnopterus) e grifo (Gyps fulvus).

O diclofenac, que na pecuária é usado essencialmente como anti-inflamatório e analgésico, foi responsável pelo declínio dramático e abrupto dos abutres do sub-continente Indiano, que quase os levou à extinção. Em Portugal, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) está atualmente a avaliar um pedido de autorização de comercialização de um medicamento veterinário para uso pecuário contendo diclofenac.

As Organizações Não-Governamentais de Ambiente (ONGA) portuguesas consideram que, face ao melhor conhecimento científico existente, e respeitando o princípio da precaução, o pedido de comercialização não pode ser aprovado, e a comercialização e uso destes medicamentos deve ser definitivamente proibida, evitando o consumar de um risco real, iminente e crítico para a conservação de várias espécies protegidas em Portugal. De salientar, ainda, a existência de várias alternativas eficazes a este fármaco que têm muito menor impacto nas aves, pelo que o tratamento dos animais domésticos é perfeitamente possível sem recorrer ao uso do diclofenac e pôr em risco os ecossistemas nacionais.

Desde 2014 que ONGA nacionais e internacionais têm vindo a alertar as autoridades competentes para os possíveis impactos deste medicamento sobre as aves necrófagas (abutres e algumas espécies de águias), tendo apelado ao Governo Português para que não autorize a utilização desta substância em território nacional ao nível da pecuária.

No seguimento destas preocupações, a Assembleia da República aprovou em abril de 2018 o Projeto de Resolução 1433/XIII apresentado pelo PAN, que recomenda ao Governo Português que não autorize a comercialização de medicamentos veterinários com diclofenac.

De acordo com a ampla informação científica existente e como referem os alertas já feitos por diversas organizações nacionais e internacionais, o diclofenac pode persistir em concentrações letais numa carcaça até sete dias depois da morte do animal. Quando abutres, águias, ou outros animais necrófagos se alimentam dessa carcaça, ingerem também o diclofenac. Em abutres do género Gyps (como o grifo) e em algumas espécies de águia do género Aquila, a substância provoca insuficiência renal aguda que rapidamente leva à morte. Na Índia, bastou que menos de 1% das carcaças disponíveis para os abutres tivessem sido tratadas com diclofenac para causar a redução das populações de três espécies de abutres em mais de 97%, o que levou a que este fármaco tenha sido banido no subcontinente indiano no ano de 2006. Daí para cá tem-se registado uma notável recuperação das populações indianas de abutres.

Portugal possui importantes populações de abutres e de grandes águias com hábitos necrófagos: o abutre-preto (Aegypius monachus), o britango (Neophron percnopterus), o grifo (Gyps fulvus), a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) e a águia-real (Aquila chrysaetos). Os abutres em particular desempenham um papel único nos nossos ecossistemas, limpando as nossas paisagens de cadáveres de animais mortos, e por isso limitando a transmissão de doenças.  A maioria destas espécies tem efetivos muito reduzidos, tendo algumas delas estatutos de conservação muito desfavoráveis em Portugal e no resto do mundo. E todas elas estão protegidas por lei em Portugal e na Europa. Tendo em conta os potenciais impactos do diclofenac nestas espécies, os seus hábitos alimentares e a suas reduzidas populações, caso o diclofenac seja autorizado e utilizado em Portugal, terá um impacto potencialmente devastador nestas aves e também nos ecossistemas onde ocorrem, em consequência do seu importante papel ecológico.

Abutre-preto ( Aegypius monachus )

Abutre-preto (Aegypius monachus)

A autorização do diclofenac em Portugal para uso pecuário poderá também colocar em causa de forma irremediável o compromisso e esforço nacionais de conservação das aves necrófagas, desperdiçando uma oportunidade de o Estado Português reiterar o seu empenho relativamente aos objetivos de conservação da natureza e sustentabilidade ambiental a nível nacional e da União Europeia.

Recorde-se que a Convenção Sobre a Conservação de Espécies Migradoras da Fauna Selvagem (CMS ou Convenção de Bona), adotou uma resolução na Conferência das Partes em 2014 (Resolução 11.15 da COP11 da CMS), com o voto favorável de Portugal, que inclui a recomendação legislativa de “proibir o uso do diclofenac veterinário para o tratamento pecuário e substitui-lo por alternativas seguras e já disponíveis, tais como o meloxicam”.

A União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) aprovou também uma moção no âmbito do Congresso Mundial de Conservação realizado em setembro de 2016, em que “Apela aos Governos que implementem urgentemente as recomendações da resolução 11.15 da CMS”, incluindo a referente à proibição do uso do diclofenac veterinário.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), parceiro nos vários projetos de conservação de aves necrófagas em Portugal, reconheceu já a sua preocupação face à potencial utilização do diclofenac ao nível da pecuária, assim como os riscos que daí advêm para a conservação das populações nacionais de aves necrófagas. A preocupação de todas as organizações envolvidas na preservação destas espécies está evidente na proposta de Plano Nacional para a Conservação das Aves Necrófagas em Portugal, que aguarda ainda aprovação final e implementação.

As organizações subscritoras ficam na expectativa de que as propostas em discussão no dia 10 sejam aprovadas na Assembleia da República, fazendo deste dia um marco positivo para as aves, ecossistemas e saúde pública nacional.

Mais informações

Nota de imprensa da BirdLife International alertando para os perigos do diclofenac.

Peritos em abutres pedem proibição global do diclofenac veterinário.

Moção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) apelando à proibição do diclofenac para uso veterinário.

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"Declaração dos Direitos dos Camponeses e outras pessoas que vivem em Zonas Rurais" aprovada pela ONU é passo histórico para proteção e preservação das comunidades rurais

A Terceira Comissão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, no dia 17 de dezembro de 2018, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, a "Declaração dos Direitos dos Camponeses e outras pessoas que vivem em Zonas Rurais".

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural congratula-se com a aprovação desta declaração, que constitui um passo histórico para a proteção e preservação das comunidades rurais e das suas formas de vida.

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A associação tem precisamente como missão dinamizar o mundo rural, assegurando a proteção e a preservação do seu património natural e construído, com foco na transmissão do conhecimento e numa abordagem pedagógica e de cooperação.

José Pereira, presidente da Palombar, considera que a aprovação desta Declaração “tem uma importância histórica porque defende, a nível internacional e nas mais altas instâncias, os direitos dos camponeses e das populações rurais, bem como a conservação e a proteção da sua identidade e cultura, ao mesmo tempo que reconhece o papel fulcral das comunidades rurais para a promoção da biodiversidade, para a soberania alimentar, para a coesão territorial e para o desenvolvimento dos países”.

A nova Declaração assume-se como uma ferramenta crucial para a defesa dos direitos dos camponeses e das populações rurais e reconhece a contribuição das comunidades rurais e dos povos indígenas para o desenvolvimento sustentável e para a biodiversidade.

Os direitos específicos reconhecidos pela Declaração incluem o direito à alimentação adequada, à terra e à água. O documento também defende a necessidade de respeitar a identidade cultural e o conhecimento tradicional da população rural, bem como de assegurar a proteção social e garantir a igualdade de género nas áreas rurais.

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A Declaração obteve 119 votos a favor, 7 votos contra e 49 abstenções e recebeu apoio principalmente dos países africanos, da América Latina e da Ásia. Países como os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e o Reino Unido, entre outros, votaram contra. Os Estados da Europa, na sua maioria, abstiveram-se. Portugal foi um dos países que votou a favor da "Declaração dos Direitos dos Camponeses e outras pessoas que vivem em Zonas Rurais".

A declaração está disponível na íntegra aqui.

Palombar contribui para censo europeu de inverno do milhafre-real

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural vai contribuir para a realização do censo europeu do milhafre-real (Milvus milvus) invernante, que decorre entre os dias 1 de janeiro e 3 de fevereiro.

O objetivo do censo é realizar a contagem dos dormitórios conhecidos de maior dimensão e promover a recolha de mais dados sobre dormitórios e outras concentrações de milhafre-real em todo o país. 

Milhafre-real ( Milvus milvus )

Milhafre-real (Milvus milvus)

O censo é realizado em diversos países da Europa, sob a coordenação da Liga para a Proteção das Aves (LPO, na sigla em francês), em França. Em Portugal, é organizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), em parceria com outras associações e entidades, e decorre no território continental.

Os primeiros censos de milhafres-reais invernantes foram realizados em janeiro de 2015, tendo contado, já nesse primeiro ano, com o contributo da Palombar.

O milhafre-real (Milvus milvus) é uma ave de rapina pouco abundante no território nacional. Está presente sobretudo na faixa fronteiriça oriental, distritos de Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja. A população invernante ocorre nessas mesmas áreas, mas também de uma forma dispersa por todo o sul do país.

A sua população residente em Portugal tem um estatuto de conservação "Criticamente em Perigo", já a população invernante tem um estatuto "Vulnerável", segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

É uma ave que prefere habitats florestais associados a zonas agro-silvo-pastoris. A espécie é monogâmica e nidifica em árvores, normalmente de grande porte, e coloca entre um a três ovos. Ambos os progenitores cuidam das crias. Pode ocupar ninhos de outras aves de rapina florestais e também reutiliza ninhos de anos anteriores.

Relativamente à sua alimentação, tanto caça presas vivas, como também tem hábitos necrófagos. Animais silvestres de pequeno porte (micromamíferos, aves, peixes e invertebrados), cadáveres de animais e os restos e desperdícios urbanos integram a sua dieta.

Atualmente, o milhafre-real está sujeito a várias ameaçadas no território nacional, como o abate a tiro, o uso de veneno e a redução da disponibilidade alimentar, entre outras.

Esta é uma das espécies-alvo de conservação do projeto ConnectNatura da Palombar.

LIFE Rupis: populações das principais presas da águia-perdigueira mantêm-se estáveis no período 2016-2017

As populações das principais presas da águia-perdigueira (Aquila fasciata), mantiveram-se relativamente estáveis entre o período 2016-2017, de acordo com dados provisórios do Relatório de Progresso da Ação D3 do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro”, relativa à monitorização das populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), perdiz-vermelha (Alectoris rufa) e pombo-das-rochas (Columba livia).

Águia-perdigueira ( Aquila fasciata)

Águia-perdigueira (Aquila fasciata)

Os resultados das campanhas de monitorização já realizadas no âmbito da Ação D3, bem como os dados de comparação com os resultados obtidos no contexto da Ação A4 (estudo de base realizado em 2016 para estimar a abundância inicial de presas da águia-perdigueira na área de intervenção do projeto LIFE Rupis), mostram que a situação populacional geral das principais espécies de presas da Aquila fasciata no Parque Natural do Douro Internacional está estável, embora o tamanho das suas populações ainda seja atualmente reduzido. No entanto, estão já a ser implementadas medidas na área do projeto para tentar reverter este cenário pela Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, pela ATNatureza – Associação Transumância e Natureza, pela Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León e pela JCyL - Junta de Castilla y León, parceiros do LIFE Rupis, para aumentar as populações dessas espécies presas, nomeadamente a gestão do habitat da perdiz-vermelha e do coelho-bravo (parcelas com sementeiras e clareiras) e o repovoamento de pombais tradicionais com pombos-das-rochas, cujos efeitos ainda não foram passíveis de avaliar no âmbito deste relatório.

Os dados indicam também que a abundância do coelho-bravo, perdiz-vermelha e pombo-das-rochas não é homogénea em toda a área do Parque Natural do Douro Internacional e do Parque Natural Arribes del Duero, bem como dentro dos territórios da águia-perdigueira. Essas espécies estão relativamente bem distribuídas em toda a área do projeto, estando presentes em níveis sub-ótimos de abundância em vários locais e/ou possuem um padrão de distribuição fragmentado (por exemplo, o coelho-bravo).

Ficha de campo utilizada na monitorização das populações de lagomorfos.

Ficha de campo utilizada na monitorização das populações de lagomorfos.

A abundância relativa de latrinas de coelho-bravo (usada como indicador da abundância de coelhos) foi muito baixa na maioria das áreas amostradas, sugerindo uma reduzida disponibilidade desta espécie para a águia-perdigueira na área do projeto.

No que se refere à perdiz-vermelha, foi registada a sua presença em todos os territórios amostrados, porém a sua abundância relativa foi sobretudo baixa no Parque Natural do Douro Internacional. No geral, os resultados obtidos no lado português foram semelhantes aos reportados pelo parceiro espanhol no Parque Natural Arribes del Duero.

Perdiz-vermelha (Alectoris rufa).

Perdiz-vermelha (Alectoris rufa).

Relativamente ao pombo-das-rochas, cujos censos avaliaram tanto a sua população selvagem quanto a feral, também esteve presente em todos os territórios monitorizados, mas a sua abundância foi muito variável em toda a área do Douro Internacional. Esta espécie mostrou ser relativamente abundante em determinados territórios, enquanto noutros a sua presença foi escassa.

No geral, as populações de coelho-bravo, perdiz-vermelha e pombo-das-rochas permaneceram relativamente estáveis entre os anos de amostragem (ações A4 e D3) nos Parques Naturais do Douro Internacional e Arribes del Duero, apesar das flutuações interanuais e de algumas alterações locais na sua abundância. É necessário, contudo, dar continuidade, nos próximos anos, à realização de censos para avaliar de forma mais robusta e aprofundada o tamanho e a dinâmica das suas populações.

A situação atual das principais espécies de presas da águia-perdigueira em alguns territórios indicam que há necessidade de continuar a implementar ações específicas no terreno, nomeadamente promover a recuperação e a gestão de pombais tradicionais, a fim de aumentar a abundância de pombos-das-rochas (ação C4) e assegurar a gestão de habitats para a recuperação de populações de perdiz e coelho-bravo (ação C5), bem como fomentar uma adequada gestão cinegética dessas espécies.

Monitorização das populações de lagomorfos na área de implementação do LIFE Rupis.

Monitorização das populações de lagomorfos na área de implementação do LIFE Rupis.

O relatório mostrou ainda que é preciso implementar medidas para avaliar 1) o efeito das ações de gestão do habitat já implementadas sobre a abundância de presas selvagens e 2) o efeito da disponibilidade de presas para a população, a dinâmica e o desempenho reprodutivo da águia-perdigueira na área do projeto. Tais análises devem integrar dados tanto do lado português quanto espanhol. No que se refere ao ponto 1), as amostragens para estimar a abundância de coelho-bravo e perdiz no ano de 2018 (ou seja, segundo ano de implementação da ação D3) foram delineadas com esse propósito. Os resultados estarão disponíveis em breve e farão parte de um relatório futuro. Relativamente ao ponto 2), a avaliação da disponibilidade de presas também deve incluir a abundância de outras espécies relevantes na dieta da águia-perdigueira, como a pega-azul (Cyanopica cyanus), o pombo-torcaz (Columba palumbus), o estorninho-malhado (Sturnus vulgaris) e várias espécies da família Turdidae.

O “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt) é um projeto de conservação transfronteiriço, entre Portugal e Espanha, cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia. Para além da componente de conservação da natureza, desenvolve diversas atividades de promoção da região do Parque Natural do Douro Internacional, dos seus valores naturais e do seu potencial para o turismo ornitológico. Coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o projeto LIFE Rupis tem como parceiros: a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a ATNatureza - Associação Transumância e Natureza, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Junta de Castilla y León, a Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León, a Vulture Conservation Foundation (VCF), a EDP Distribuição e a Guarda Nacional Republicana (GNR).

Na região transfronteiriça do vale do Douro, área de intervenção do projeto LIFE Rupis, o número de casais de águia-perdigueira permaneceu estável na última década (13–14 casais reprodutores desde 2006), no entanto, o seu sucesso reprodutor diminuiu de 8 crias voadoras, em 2006, para apenas 4, em 2013. Um dos principais objetivos do projeto LIFE Rupis é inverter esta tendência.

Os baixos valores de sucesso reprodutor da espécie verificados na região têm sido associados, em parte, à reduzida disponibilidade de espécies como o coelho-bravo, a perdiz-vermelha e o pombo-das-rochas. Estas são as principais espécies de presas da águia-perdigueira na Península Ibérica, tanto durante a época de reprodução, como no período não reprodutivo, como atestam vários estudos já realizados.

As populações dessas espécies de presas diminuíram drasticamente em muitas regiões da Península Ibérica como resultado de mudanças no uso do solo, surtos de doenças e/ou gestão inadequada da caça, gerando consequências negativas para uma grande comunidade de predadores vertebrados, incluindo a águia-perdigueira.

A relativa escassez das suas principais presas em muitas áreas do vale do Douro forçou as águia-perdigueira a diversificaram a sua alimentação e a procurarem outras fontes de alimento como passeriformes de médio a grande porte e répteis (as quais poderão representar presas sub-ótimas em termos energéticos).

A gestão e a conservação eficazes das principais presas da águia-perdigueira são, portanto, cruciais para a viabilidade populacional desta ave de rapina no vale do Douro. Diversas ações focadas na recuperação e no reforço das populações dessas espécies na região são de importância fulcral no contexto do projeto LIFE Rupis, com vista a aumentar a disponibilidade de presas para a águia-perdigueira.

As ações direcionadas para assegurar a melhoria da qualidade do habitat do coelho-bravo e da perdiz-vermelha (ações C5 e C6), por um lado, e para promover a recuperação de pombais tradicionais e repovoamento com pombo-das-rochas (ação C4), por outro, são algumas das ações de conservação/gestão que já estão a ser implementadas.

Adicionalmente, será realizada ainda uma avaliação da distribuição e abundância das principais presas da águia-perdigueira (ações A4 e D3) e a monitorização das suas tendências populacionais (ação D3), medidas que são fundamentais para aferir sobre o estado dessas populações na área do projeto, bem como para avaliar o sucesso das ações de conservação/gestão realizadas.

O Relatório de Progresso completo da Ação D3 do projeto ‘LIFE Rupis’ pode ser consultado aqui.

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Voluntariado internacional recupera e descobre património arquitetónico e arqueológico do Nordeste Transmontano

O que um povo constrói e transmite de geração em geração está intrinsecamente ligado às artes e ofícios, são artefactos da História que marcam um território, a sua cultura e as suas gentes. É isto que importa conservar e manter vivo. E esta é exatamente uma das missões da Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural: preservar o património edificado e as técnicas tradicionais de construção, assegurando a conservação dos recursos e a transmissão do conhecimento, através de uma abordagem pedagógica e de cooperação que resulte no enriquecimento dos indivíduos e na dinamização do mundo rural.

Para cumprir esse desígnio, a Palombar organizou, ao longo de 2018, juntamente com parceiros nacionais e internacionais, os Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI), que tiveram como objetivo principal promover o restauro e a conservação do património construído e a descoberta da riqueza arqueológica da região do Nordeste Transmontano.

Durante o ano de 2018, foram realizados os 51.º, 52.º, 53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional, que decorreram em Algoso (concelho de Vimioso), Uva (concelho de Vimioso) e Aldeia Nova (concelho de Miranda do Douro), respetivamente.

O 51.º CTVI teve como objetivo recuperar o telhado de uma curriça nas encostas do Rio Angueira, em Algoso, e decorreu entre os dias 16 e 27 de abril de 2018. Neste campo de trabalho, que resultou de uma parceira realizada com a Union Rempart, em França, e a União de Freguesias de Algoso, Campo de Víboras e Uva, participaram oito jovens voluntários franceses, estudantes dos 2.º e 3.º anos do curso de Arquitetura.

A curriça é uma estrutura simples construída com pedras e que se localiza sobretudo no meio dos montes. Servia outrora para guardar o gado pequeno ou para a pernoita de animais e/ou pessoas. É um ícone arquitetónico que está associado ao mundo rural e às suas atividades. 

No âmbito da participação nesta iniciativa, os (as) voluntários (as) tiveram a oportunidade de aprender com o formador Manuel Gomes o processo de reparação de um telhado, desde a recolha, seleção e limpeza das madeiras e telhas à construção e colocação da estrutura de madeira de suporte ao telhado e posterior assentamento das vigas, dos caibros, das ripas e, finalmente, das telhas.

O grupo de voluntários foi sempre acompanhado e coordenado no terreno por três monitores da Palombar. Os participantes puderam também desfrutar de momentos de lazer, durante os quais conheceram e exploraram de forma mais ampla as paisagens, cultura e tradições transmontanas.

O 52.º CTVI, que se realizou entre os dias 2 e 13 de julho de 2018, foi dedicado à recuperação de um pombal tradicional na aldeia de Uva. Este campo de trabalho também foi realizado em parceria com a Union Rempart e com a União de Freguesias de Algoso, Campo de Víboras e Uva.

Participaram no campo de trabalho cinco voluntários, quatro de França e um de Itália. Nuno Martins foi o formador que transmitiu aos participantes as técnicas tradicionais de construção de um pombal tradicional.

Durante a atividade, foi recuperada a parede de um pombal, tendo sido rebocada também uma parede externa do quintal da casa dos voluntários, também na aldeia de Uva, com a técnica do reboco tradicional feito à base de areia e cal. Os voluntários pintaram ainda o exterior de um pombal tradicional.

Os pombais tradicionais são um património emblemático da região do Nordeste Transmontano. Pontilham a paisagem com a sua alva singeleza e estão fortemente associados à comunidade rural, que outrora usava os pombos juvenis (borrachos) para alimentação, sendo esta uma fonte adicional de proteína para os habitantes locais. Já o estrume dos pombos, considerado de elevado valor fertilizante e denominado por “pombinho” pelos aldeões, era usado para fertilizar os solos agrícolas.

Os pombais são também estruturas que contribuem para a proteção da biodiversidade, visto que os pombos fazem parte, por exemplo, da dieta da águia-perdigueira ou águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), que tem um estatuto de conservação “Em perigo”, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Ao promover a sua reconstrução e conservação, estamos a contribuir não só para manter vivo o património ancestral construído, como também para proteger a biodiversidade local.

Os 53.º e 54.º CTVI realizaram-se em simultâneo, entre os dias 20 de agosto a 14 de setembro, no Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova. Estes CTVI tiveram como parceiros a Câmara Municipal de Miranda do Douro, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e também a Union Rempart.

No total, participaram nestes CTVI 14 voluntários de cinco nacionalidades: argelina, brasileira, francesa, italiana e portuguesa. Os trabalhos de escavação arqueológica realizados no Castro de São João das Arribas foram coordenados por Susana Cosme e dirigidos por Mónica Salgado e Pedro Pereira. Integraram o grupo de voluntários estudantes de arqueologia e outros voluntários sem experiência em arqueologia, mas com interesse na área. 

Durante estes CTVI, os participantes aprenderam os procedimentos e técnicas associados às escavações arqueológicas, como limpeza das zonas a escavar; decapagem: escavação, remoção de terras e recolha de espólio arqueológico; lavagem de espólio arqueológico; montagem de quadrículas e aprendizagem e levantamento do sistema de cotas.

O Castro de São João das Arribas está classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, e DG n.º 136, de 23-06-1910. A zona deste Castro consiste num “povoado fortificado assente sobre um promontório, cujo sistema defensivo é composto por duas linhas de muralha e um torreão, o colo de acesso é protegido por muralha e provavelmente um fosso. Os vestígios de romanização são abundantes e incluem um elevado número de epígrafes. Corresponde ao local onde ergue atualmente o pequeno santuário de São João das Arribas”, descreve o site Rota da Terra Fria Transmontana. Esta é uma zona de elevado interesse arqueológico e de uma riqueza paisagística única em Portugal, com vista para o Rio Douro e o desenho íngreme e vertiginoso das suas arribas.   

Em todos os campos de trabalho, além das atividades associadas à reconstrução/recuperação do património arquitetónico e arqueológico, os voluntários também estiveram envolvidos na manutenção e logística dos campos de trabalho, momentos que visaram fomentar o sentimento de partilha e entreajuda, essenciais à vida comunitária.

No âmbito da realização dos CTVI, foram ainda organizadas visitas a centros, museus e locais icónicos do Nordeste Transmontano, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a região e o seu património natural, cultural e edificado, e ainda de enriquecer esta experiência única, proporcionando aos voluntários o contacto direto com as comunidades locais e o intercâmbio geracional e cultural.

Assim, foram realizadas visitas ao Centro Interpretativo dos Pombais Tradicionais (na sede da Palombar, em Uva, Vimioso); Centro de Valorização do Burro de Miranda (AEPGA- Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, em Atenor, Miranda do Douro); Centro de Acolhimento do Burro de Miranda (AEPGA, em Pena Branca, Miranda do Douro); Museu da Terra de Miranda, Concatedral e centro histórico de Miranda do Douro; Ecomuseu Terra Mater e Fraga de l Puio (em Picote, Miranda do Douro); Castelo de Algoso (em Algoso, Vimioso) e Minas de Santo Adrião (em Vimioso/Miranda do Douro).

Os voluntários puderam ainda participar na Feira do Naso (Santuário do Naso, na Póvoa, Miranda do Douro), em sessões de observação de aves, banhos no Rio Angueira, entre outras atividades.

A Palombar agradece a todos os parceiros e formadores que estiveram envolvidos na organização dos CTVI e, principalmente, aos (às) voluntários (as) que participaram nos campos, que são quem lhes dão vida e sentido. Acreditamos que só com a participação e envolvimento de todos (as) seremos capazes de manter vivo e dinâmico a nosso património cultural, natural e construído.

Palombar destaca importância de aliar o turismo à conservação da Natureza e à valorização das comunidades rurais em seminário sobre Turismo Sustentável

A Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural participou, no dia 13 de novembro, no seminário “Turismo Sustentável ao Serviço da Conservação da Natureza e das Comunidades Rurais”, organizado pela AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino e pelo Centro de Acolhimento do Burro.

José Pereira, presidente da Palombar, falou, no âmbito da participação da associação neste evento, sobre a importância de promover um turismo sustentável e ético que esteja intrinsecamente relacionado com a conservação da Natureza e do património rural.

José Pereira - presidente da Palombar

José Pereira - presidente da Palombar

Destacou também que o turismo não pode ser visto apenas a partir de uma ótica economicista, mas, acima de tudo, tem de ser estruturado com base na valorização, proteção e conservação dos ecossistemas e das comunidades locais.

“O turismo ético e responsável deve estar ao serviço das comunidades e da biodiversidade, criando uma relação frutífera que contribua não apenas para gerar riqueza, mas, sobretudo, para promover e preservar as culturas e tradições locais e o património natural, sem os quais a própria atividade turística deixa de ter sentido”, afirmou o presidente Palombar.

José Pereira sublinhou o papel da Palombar enquanto agente dinamizador da proteção da biodiversidade no Nordeste Transmontano e da conservação do património rural edificado. Através da atuação dos seus técnicos especializados em fauna selvagem, a Palombar, no âmbito de vários projetos de conservação da Natureza e da sua missão, tem promovido a preservação de várias espécies com estatuto de conservação delicado em Portugal, como é o caso do britango (Neophron percnopterus) e da águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), bem como contribuído para a preservação de técnicas tradicionais de construção, nomeadamente através da recuperação de pombais tradicionais.

José Pereira - presidente da Palombar

José Pereira - presidente da Palombar

A Palombar também é responsável pela criação, em parceria com a Câmara Municipal de Vimioso, do Centro de Interpretação dos Pombais Tradicionais (CIPT), em 2014, ano em que a Antiga Escola Primária de Uva (Vimioso) foi reaproveitada e transformada no CIPT e sede da associação. O CIPT foi criado com o objetivo de dar a conhecer os pombais tradicionais existentes na região e, ao mesmo tempo, ser um espaço de partilha de conhecimento das técnicas de construção do património rural. O CIPT visa disseminar o conhecimento sobre este tipo de construção e ser o ponto de partida para a descoberta dos pombais e do seu valor cultural, arquitetónico e ecológico. Durante a visita, é também possível fazer um percurso pela aldeia de Uva, que possui mais de 40 pombais tradicionais, de modo a conhecer de perto estas estruturas arquitetónicas únicas que pontilham a paisagem com a sua alva singeleza, bem como saber mais sobre a sua utilidade.

A atividade da Palombar, que se cruza com o turismo de Natureza e rural, pretende também contribuir para promover o turismo sustentável, ético e responsável, em prol da Natureza e das comunidades locais.

O seminário “Turismo Sustentável ao Serviço da Conservação da Natureza e das Comunidades Rurais”, que decorreu no Parque Ibérico de Natureza e Aventura (PINTA), em São Joanico, Vimioso, realizou-se no âmbito do projeto ‘Melhores Práticas para um Futuro Ético e Sustentável através do Turismo Rural´, promovido pelo Centro de Acolhimento do Burro e pela AEPGA.

Este projeto de intercâmbio sobre boas práticas de turismo ético e sustentável é financiado pelo programa Erasmus+ Juventude em Ação e tem como parceiros o Linking Tourism & Conservation (Noruega) e a Cryosanabria (Espanha).

O seminário de entrada livre pretendeu “ser um espaço de reflexão sobre os desafios e oportunidades do turismo ao serviço das comunidades rurais”, tendo contado com a participação de instituições dinâmicas no setor do turismo no Nordeste Transmontano.