A maior ave de rapina da Europa volta a alimentar-se no Nordeste Transmontano

O abutre-preto (Aegypius monachus) é a maior ave de rapina da Europa (pode alcançar os 3 m de envergadura) e está numa situação vulnerável a nível europeu, e a nível nacional tem o estatuto de Criticamente em Perigo (CR). É uma ave necrófaga, associada a biótopos arborizados e procura alimento principalmente em terrenos abertos de cerealicultura e pastoreio extensivos, mas também em zonas semi-abertas e em florestas de espécies autóctones. Atinge a maturidade sexual aos 5-6 anos de idade e pode viver até aos 20-25, formando casais estáveis que podem durar muitos anos. Apresenta um período reprodutor longo que dura quase 9 meses e faz uma postura anual quase sempre composta por um ovo.

Em meados da década de 70, extinguiram-se os casais reprodutores desta espécie em Portugal, tendo sido confirmada pela primeira vez em 2010 a nidificação de 2 casais no Tejo Internacional, passados quase 40 anos. Desde então, a população nidificante tem vindo a aumentar e, em 2012, fixou-se um casal reprodutor no Douro Internacional - inédito para a espécie cuja colónia mais próxima está a cerca de 100 Km na Sierra de Gata e Arca em Espanha. Este casal nidificou com sucesso por três anos consecutivos (2014/16) tendo criado 1 cria em cada um desses anos. Em 2015, estimava-se a presença de cerca de 13 casais em território nacional.

3 abutres-negros, 4 britangos e alguns grifos em alimentação no CAAN de Mogadouro

3 abutres-negros, 4 britangos e alguns grifos em alimentação no CAAN de Mogadouro

Um dos maiores entraves à conservação desta espécie é a mortalidade por envenenamento através da ingestão de iscos ou carcaças envenenadas muitas vezes usados no controlo de predadores de espécies cinegéticas ou pecuárias. A mortalidade associada a este fenómeno é muito elevada, principalmente devido ao comportamento colonial destes animais. Só em Maio de 2015, num caso em particular, morreram 4 abutres-pretos e um britango (Neophron percnopterus) em simultâneo, na Zona de Proteção Especial (ZPE) dos Rios Sabor e Maçãs, junto ao rio Angueira, em Algoso – neste contexto, e se fossem animais reprodutores, corresponderia a 15% da população reprodutora, mas felizmente não foi esse o caso.

Por outro lado, e para agravar a situação, o aparecimento da encefalopatia espongiforme bovina (EEB) ou “doença das vacas loucas”, assim como de outras doenças infectocontagiosas em gado doméstico, originou um problema sanitário e de saúde pública a nível da Europa no final da década dos anos 90, que levou à aplicação de medidas de recolha de carcaças de gado que implicam uma progressiva diminuição da disponibilidade trófica para as aves necrófagas. Este declínio de disponibilidade de alimento aliado à mortalidade por envenenamento constitui um dos maiores problemas de conservação para as aves necrófagas.

No sentido de minimizar os episódios de envenenamento e aumentar a disponibilidade de alimento, é fornecido regularmente alimento em Campos de Alimentação de Aves Necrófagas (CAAN) – áreas vedadas de aproximadamente 1 ha – onde se garante uma fonte de alimento regular, segura e livre de venenos.

Neste momento, a Palombar encontra-se a gerir 4 CAANs, 3 deles na ZPE dos Rios Sabor e Maçãs no âmbito do Grupo Nordeste, implementados ao abrigo de um projeto em parceria com a EDP, bem como 1 na ZPE do Douro Internacional e Vale do Águeda onde, em 2017, prevê iniciar o funcionamento de mais 2 CAANs no âmbito do projeto Life Rupis. Estes CAAN integram uma rede de alimentadores para aves necrófagas e contribuem para a implementação do Plano Nacional para a Conservação de Aves Necrófagas de Portugal publicado pelo ICNF e com contribuição de várias entidades de protecção de ambiente e conservação da natureza. Ao abrigo do projecto Life Rupis, está a ser definida uma estratégia de alimentação transfronteiriça para as aves necrófagas.

Abutre-preto e vários grifos em alimentação no CAAN de Alfândega da Fé

Abutre-preto e vários grifos em alimentação no CAAN de Alfândega da Fé

O trabalho que tem sido desenvolvido faz-nos acreditar que estas medidas são um sucesso e fundamentais para a conservação destas aves.

A par de notícias de abutres-pretos que viajam do Sul de França ao Norte de Portugal ou de abutres-pretos observados na costa galega (Nigrán), são cada vez mais frequentes os registos e observações desta espécie no Norte de Portugal, particularmente nas áreas protegidas fronteiriças, como o Parque Nacional Peneda-Gerês, o Parque Natural de Montesinho e o Parque Natural do Douro Internacional, conforme se pode confirmar na plataforma ebird ou nos registos de observadores particulares que nos fazem chegar esses dados. São indícios que corresponderão a uma potencial ampliação da área de distribuição da espécie para norte.

De destacar que nos CAANs monitorizados pela Palombar tem sido frequente e regular a observação de abutres-pretos a alimentar-se. Podemos confirmar com certeza a presença de pelo menos 5 indivíduos diferentes no território, podendo até ser mais, tendo em conta que os CAANs em funcionamento distam entre 40 a 100 km entre si. O fornecimento de alimento é regular, bissemanal nas épocas de maior carência e de maior necessidade trófica (fase de reprodução) e semanal durante o resto do ano. A par de todo este trabalho, a Palombar mantém um plano de monitorização regular dos CAANs e dos territórios de aves necrófagas, que permite aferir o estado das populações e delinear estratégias de acção.

Gráfico de frequência e uso dos CAANs pelo abutre-preto

Gráfico de frequência e uso dos CAANs pelo abutre-preto

Crias a nascer, juvenis a aprender e adultos de abutre-preto a projectar as suas sombras nas escarpas do Douro Internacional, nas serras de Montesinho, nos vales dos Rios Sabor e Maçãs, e nos cumes da Serra do Gerês é um imaginário cada vez mais próximo de se tornar realidade e que a Palombar está empenhada em concretizar.