Ciclo “À Descoberta do Nordeste Transmontano” revela riqueza natural do “Reino Maravilhoso”

Afloramentos rochosos, fragas, rios, ribeiras, urzes, carqueja, giestas, estevas, oliveiras, carvalhos, castanheiros, veados, corços, lobos, aves de rapina, paisagens deslumbrantes com um horizonte sem fim… assim é o “Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes”, como denominou teluricamente o poeta Miguel Torga, que desvendámos no ciclo “À Descoberta do Nordeste Transmontano”.

O ciclo, organizado pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, em parceria com a AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, mostrou aos participantes, em três percursos, a riqueza da fauna, da flora e paisagística de três áreas emblemáticas do Nordeste Transmontano:  Zona de Proteção Especial (ZPE) Rios Sabor e Maçãs, que inclui também o Rio Angueira (7 de julho); Parque Natural do Douro Internacional (18 de agosto) e Parque Natural de Montesinho (13 de outubro). As áreas visitadas estão incluídas na Rede Natura 2000 e na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica. Em todos os percursos realizados, os participantes foram acompanhados por burros de Miranda, grandes companheiros de viagem.

Zona de Proteção Especial (ZPE) Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira | 7 de julho de 2018

A ZPE Rios Sabor e Maçãs, que também inclui o Rio Angueira, foi classificada em setembro de 1999. Predominam, na paisagem desta zona, os vales encaixados do Rio Sabor e dos seus principais afluentes, os rios Maçãs e Angueira. Trata-se de uma área de relevo montanhoso, na qual alternam troços de vales de diferentes declives. Vastas encostas estão cobertas por maciços de vegetação autóctone, nomeadamente sobreirais, azinhais e zimbrais. Esta é uma zona de nidificação de aves rupícolas como o britango (Neophron percnopterus), a águia-real (Aquila chrysaetos) e o bufo-real (Bubo bubo), sendo de destacar a população nidificante de águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), que corresponde a um dos mais significativos do nosso país.

 Zona de Proteção Especial (ZPE) Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - percurso | 7 de julho de 2018

Zona de Proteção Especial (ZPE) Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - percurso | 7 de julho de 2018

O percurso realizado nesta zona teve uma duração de cerca de 4-5 horas, tendo sido seguida a rota Uva, Vale de Algoso, Algoso, numa adaptação da Pequena Rota 3 – Vimioso (PR3 VMS) – Dos pombais de Uva ao Castelo de Algoso. Os 22 participantes que integraram esta atividade foram acompanhados por quatro guias da Palombar, o burro Escalhão da AEPGA e um monitor desta associação.

A descoberta da emblemática aldeia de Uva, ladeada por dezenas de pombais tradicionais, foi o ponto de partida deste percurso, durante o qual se percorreram lameiros, campos de cultivo, pequenos vales e zonas ribeirinhas do Rio Angueira, zonas que são também habitat de corço (Capreolus capreolus), javali (Sus scrofa) e raposa (Vulpes vulpes).

 ZPE Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - observação de aves | 7 de julho de 2018

ZPE Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - observação de aves | 7 de julho de 2018

 Burro Escalhão da AEPGA e grupo de participantes | 7 de julho de 2018

Burro Escalhão da AEPGA e grupo de participantes | 7 de julho de 2018

Foram avistadas, durante o passeio, 40 espécies de aves: andorinhão-preto (Apus apus), pombo-das-rochas (Columba livia), abrute-do-Egipto (Neophron percnopterus), grifo (Gyps fulvus), águia-calçada (Hieraaetus pennatus), tartaranhão-caçador (Circus pygargus), milhafre-preto (Milvus migrans), poupa (Upupa epops), abelharuco (Merops apiaster), papa-figos (Oriolus oriolus), gaio (Garrulus glandarius), pega-rabuda (Pica pica), calhandrinha-comum (Calandrella brachydactyla), andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris), andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), andorinha-dáurica (Cecropis daurica), andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), chapim-azul (Cyanistes caeruleus), trepadeira-comum (Certhia brachydactyla), carriça (Troglodytes troglodytes), rouxinol-bravo (Cettia cetti), felosa-de-bonelli (Phylloscopus bonelli), felosa-poliglota (Hippolais polyglotta), toutinegra-de-barrete-preto (Sylvia atricapila), toutinegra-real (Sylvia hortensis), toutinegra-carrasqueira (Sylvia cantillans), toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala), rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros), melro-preto (Turdus merula), estorninho-preto (Sturnus unicolor), alvéola-branca (Motacilla alba), tentilhão-comum (Fringilla coelebs), verdilhão (Carduelis chloris), pintassilgo (Carduelis carduelis), chamariz (Serinus serinus), trigueirão (Emberiza calandra), escrevedeira-de-garganta-cinzenta (Emberiza cia), escrevedeira-de-garganta-preta (Emberiza cirlus), pardal-comum (Passer domesticus) e pardal-francês (Petronia petronia).

 ZPE Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - observação de aves | 7 de julho de 2018

ZPE Rios Sabor e Maçãs e Rio Angueira - observação de aves | 7 de julho de 2018

O passeio terminou no majestoso Castelo de Algoso, com o seu despenhadeiro de cortar a respiração e a imponência das suas escarpas, com uma paisagem bucólica e telúrica como pano de fundo.

 Percurso com o Castelo de Algoso ao fundo | 7 de julho de 2018

Percurso com o Castelo de Algoso ao fundo | 7 de julho de 2018

 Grupo de participantes | 7 de julho de 2018

Grupo de participantes | 7 de julho de 2018

Parque Natural do Douro Internacional | 18 de agosto de 2018

O Parque Natural do Douro Internacional foi classificado em maio de 1998. “De rio de águas turbulentas, o Douro, devido às barragens, fez-se um vasto e tranquilo espelho de água aprisionado entre muralhas a prumo, sendo notório o contraste entre a estreita garganta por onde corre e o ondulado das superfícies adjacentes. A área do Parque abrange o troço fronteiriço do Rio Douro, incluindo o seu vale e superfícies planálticas adjacentes, e prolonga-se para sul através do vale do seu afluente, o Rio Águeda, numa extensão de cerca de 120 km”, descreve o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

A parte norte do parque é a que tem menor influência atlântica de Trás-os-Montes, sendo composta por um extenso planalto, com altitudes que variam entre os 700 e os 800 metros. Aqui, o vale do Douro é bastante encaixado, com margens escarpadas essencialmente graníticas, as "arribas". À medida que se avança para sul, o vale apresenta-se mais aberto, com fundos de vales aplanados, permanecendo as vertentes escarpadas; há ainda pequenas áreas planálticas e relevos residuais encimados por quartzitos. 

A fauna presente neste Parque Natural distingue-se pelo elevado número de espécies e pelo seu estatuto de conservação, como o chasco-preto (Oenanthe leucura) e o milhafre-real (Milvus milvus) - população residente -, que estão “Criticamente Em Perigo”, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal; e o abutre-do-egito (Neophron percnopterus), o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), a águia-real (Aquila chrysaetos), a águia-de-Bonelli (Aquila fasciata) e a gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax), que estão classificadas como “Em Perigo”.

Nota: este percurso não foi realizado devido ao número insuficiente de participantes inscritos.

Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro de 2018

O Parque Natural de Montesinho, classificado pela primeira vez em agosto de 1979, é constituído por uma sucessão de elevações arredondadas e vales profundamente encaixados. Situado na Terra Fria transmontana, os xistos são as rochas dominantes, mas podem ainda ser encontrados granitos, rochas ultrabásicas e pequenas manchas calcárias. A enorme diversidade da vegetação pode ser observada em percursos de poucos quilómetros, encontrando-se carvalhais, soutos, sardoais (bosques de azinheira), bosques ripícolas, giestais, urzais, estevais, lameiros, etc.

 Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro

Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro

 Parque Natural de Montesinho - Barragem de Serra Serrada | 13 de outubro 2018

Parque Natural de Montesinho - Barragem de Serra Serrada | 13 de outubro 2018

Este Parque possui uma elevada diversidade biológica, resultante da diversidade de habitats que ocorrem nesta área de montanha. Com mais de 110 espécies de aves nidificantes, é uma área importante para as aves de rapina, como a águia-real (Aquila chrysaetos).

Estão referenciadas para o Parque Natural de Montesinho 70% das espécies de mamíferos terrestres ocorrentes em território nacional, apresentando cerca de 10% destas espécies um estatuto de conservação desfavorável, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

De destacar ainda a presença de uma das mais importantes populações de lobo-ibérico (Canis lupus signatus) em Portugal. As principais presas silvestres deste grande carnívoro, nomeadamente o veado (Cervus elaphus), o corço (Capreolus capreolus) e o javali (Sus scrofa) são também mamíferos abundantes nesta região.

O passeio no Parque Natural de Montesinho seguiu um percurso circular, com início na tradicional e encantadora aldeia de Montesinho, passando pela Barragem de Serra Serrada e terminando novamente naquela aldeia. A duração do percurso foi de cerca de seis horas.

 Aldeia de Montesinho | 13 de outubro de 2018

Aldeia de Montesinho | 13 de outubro de 2018

Os 11 participantes que fizeram o percurso foram acompanhados por dois guias da Palombar, os burros Atenor e Lourenço da AEPGA e um monitor desta associação.

 Parque Natural de Montesinho - percurso | 13 de outubro de 2018

Parque Natural de Montesinho - percurso | 13 de outubro de 2018

 Parque Natural de Montesinho - percurso | 13 de outubro de 2018

Parque Natural de Montesinho - percurso | 13 de outubro de 2018

 Na companhia de um burro mirandês | 13 de outubro de 2018

Na companhia de um burro mirandês | 13 de outubro de 2018

Por entre afloramentos rochosos, fragas dispersas a compor a paisagem com a sua geometria peculiar, ribeiros e paisagens deslumbrantes, foram avistados indícios de presença de fuinha (Martes foina), ouriço (Erinaceus europaeus), lobo-ibérico (Canis lupus signatus) e corço (Capreolus capreolus).

 Excremento de fuinha ( Martes foina ) | 13 de outubro de 2018

Excremento de fuinha (Martes foina) | 13 de outubro de 2018

 Excremento de lobo-ibérico ( Canis lupus signatus ) | 13 de outubro de 2018

Excremento de lobo-ibérico (Canis lupus signatus) | 13 de outubro de 2018

Vinte e nove espécies de aves também surpreenderam os participantes: perdiz (Alectoris rufa), corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), garça-real (Ardea cinerea), grifo (Gyps fulvus), pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major), gaio (Garrulus glandarius), gralha-preta (Corvus corone), corvo (Corvus corax), cotovia-arbórea (Lullula arborea), chapim-azul (Cyanistes caeruleus), chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus), trepadeira-azul (Sitta europaea), trepadeira-comum (Certhia brachydactyla), carriça (Troglodytes troglodytes), toutinegra-do-mato (Sylvia undata), pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca), rabirruivo-preto (Phoenicurus ochruros), cartaxo-comum (Saxicola rubicola), melro-preto (Turdus merula), estornino-preto (Sturnus unicolor), ferreirinha-comum (Prunella modularis), alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea), alvéola-branca (Motacilla alba), petinha-dos-prados (Anthus pratensis), tentilhão-comum (Fringilla coelebs), chamariz (Serinus serinus), escrevedeira-de-garganta-cinzenta (Emberiza cia) e pardal-comum (Passer domesticus).

 Parque Natural de Montesinho - observação de aves | 13 de outubro de 2018

Parque Natural de Montesinho - observação de aves | 13 de outubro de 2018

 Identificação de aves observadas | 13 de outubro de 2018

Identificação de aves observadas | 13 de outubro de 2018

  Merendera montana . Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro de 2018

Merendera montana. Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro de 2018

Já ao cair da tarde, quando o crepúsculo faz o seu chamamento misterioso aos animais, e depois de terminado o percurso, no regresso a casa, duas cervas e uma cria com olhar curioso e desconfiado, surpreenderam o grupo na zona de Deilão, a rematar em grande o passeio no “Reino Maravilhoso” que ficará na memória.

O ciclo “À Descoberta do Nordeste Transmontano” contou ainda com o apoio do PINTA – Parque Ibérico de Natureza e Aventura de Vimioso, Vales do Vimioso, Câmara Municipal de Vimioso, Câmara Municipal de Bragança e Câmara Municipal de Mogadouro.

 Cerva adulta e cria de veado ( Cervus elaphus ) - Deilão, Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro de 2018

Cerva adulta e cria de veado (Cervus elaphus) - Deilão, Parque Natural de Montesinho | 13 de outubro de 2018

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