Grifo com 22 anos beneficia de campos de alimentação do Projeto LIFE Rupis

Um grifo (Gyps fulvus) com 22 anos de idade tem beneficiado, nos últimos anos, dos Campos de Alimentação para Aves Necrófagas (CAAN) geridos pela Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, no âmbito do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt) e do “Grupo Nordeste” – Grupo para a Promoção do Desenvolvimento Sustentável. O avistamento de um exemplar tão velho desta espécie é surpreendente e, ao mesmo tempo, fascinante.

O grifo tem um estatuto de conservação “Quase Ameaçado” em território nacional, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.  A idade máxima conhecida que esta espécie já atingiu foi de 41 anos, em cativeiro. Contudo, a sua idade máxima registada no meio natural é bastante inferior: 25 anos. O grifo tem ainda uma Generation Length (GL) ou “Duração de uma geração”, em tradução livre, de 17,8 anos.

A GL é uma informação fundamental para a ecologia populacional, bem como para avaliar o estado de ameaça das espécies e refere-se à idade média dos progenitores da coorte atual (i.e. dos indivíduos acabados de nascer). A duração do tempo geracional reflete, portanto, a taxa de renovação dos indivíduos reprodutores numa população.

Só no mês de setembro, este grifo foi captado duas vezes, nos dias 10 e 19, pelas câmaras de foto-armadilhagem colocadas pelos técnicos de monitorização de fauna selvagem da Palombar num CAAN localizado no concelho de Bragança. O mesmo animal visitou ainda os CAAN geridos pela Palombar, nos concelhos de Mogadouro e Alfândega da Fé, em 2016, por três vezes, nos meses de agosto, outubro e novembro.

A visita deste animal aos CAAN é reveladora da importância destes campos para a conservação desta espécie e do amplo impacto que o projeto LIFE Rupis tem tido, desde que foi implementado, em 2015, na preservação de várias aves de rapina e necrófagas ameaçadas não só na Península Ibérica, como também na Europa.

O seguimento deste grifo só tem sido possível graças ao recurso à anilhagem da ave. Este grifo foi anilhado em 1996, quando tinha 1 ano de vida, em Montes de Jerez de la Frontera, em Cádis, Espanha. A entidade responsável pelo anilhamento e por centralizar as informações relativas à monitorização deste animal é a Estação Biológica de Doñana, em Sevilha, Espanha.

A Palombar, no âmbito do projeto LIFE Rupis, monitoriza aves anilhadas, partilhando informação sobre estas com várias entidades nacionais e internacionais, bem como faz a anilhagem de aves de modo a assegurar o seu seguimento e avaliação.

A anilhagem é uma ferramenta indispensável para o estudo científico das aves e dos seus movimentos e migrações. A análise das deslocações de aves anilhadas permite definir as suas rotas migratórias e conhecer as áreas de repouso ou paragem, bem como obter informação crucial para orientar medidas de conservação efetivas e para guiar o planeamento de sistemas integrados de áreas protegidas para defesa da avifauna.

Adicionalmente, a informação recolhida através da recaptura de aves anilhadas permite obter um conjunto de parâmetros populacionais importantes, tais como a taxa de sobrevivência e o sucesso reprodutor. Estes dados são essenciais para determinar as causas de variações numéricas observadas nas populações de aves e para delinear estratégias de conservação das espécies.

Em Portugal, nidificam algumas centenas de casais de grifos, mas a sua distribuição é fortemente assimétrica. O grifo distribui-se sobretudo pelo interior do território nacional, sendo mais comum junto à fronteira com Espanha. As principais zonas de reprodução situam-se no Nordeste Transmontano, que alberga mais de metade da população portuguesa desta espécie. O grifo está presente no nosso país ao longo de todo o ano, mas efetua movimentos amplos fora da época de reprodução, surgindo então noutras zonas do território.

Sobre o projeto LIFE Rupis

O “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt) é um projeto de conservação transfronteiriço, com a duração de quatro anos (2015 – 2019), cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia.

 O projeto “LIFE Rupis” é coordenado pela Sociedade Portuguesa Para o Estudo das Aves (SPEA) e conta com vários parceiros nacionais e internacionais, entre os quais a Palombar.

O projeto, que decorre em território português e espanhol, mais concretamente na Zona de Proteção Especial (ZPE) Douro Internacional e Vale do Águeda e na Zona de Especial Protección para las Aves (ZEPA) Arribes del Duero, pretende implementar ações que visam reforçar as populações de duas espécies prioritárias da Diretiva Aves nesta região, nomeadamente o britango (Neophron percnopterus) e a águia-perdigueira (Aquila fasciata), através da redução da sua mortalidade e do aumento do seu sucesso reprodutor.

As ações do “LIFE Rupis” beneficiam também outras espécies com estatuto de conservação igualmente desfavorável como é o caso do abutre-preto (Aegypius monachus) e do milhafre-real (Milvus milvus). As populações de todas estas espécies encontram-se em declínio, estando globalmente ameaçadas, em particular na Península Ibérica.

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