Voluntariado internacional recupera e descobre património arquitetónico e arqueológico do Nordeste Transmontano

O que um povo constrói e transmite de geração em geração está intrinsecamente ligado às artes e ofícios, são artefactos da História que marcam um território, a sua cultura e as suas gentes. É isto que importa conservar e manter vivo. E esta é exatamente uma das missões da Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural: preservar o património edificado e as técnicas tradicionais de construção, assegurando a conservação dos recursos e a transmissão do conhecimento, através de uma abordagem pedagógica e de cooperação que resulte no enriquecimento dos indivíduos e na dinamização do mundo rural.

Para cumprir esse desígnio, a Palombar organizou, ao longo de 2018, juntamente com parceiros nacionais e internacionais, os Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI), que tiveram como objetivo principal promover o restauro e a conservação do património construído e a descoberta da riqueza arqueológica da região do Nordeste Transmontano.

Durante o ano de 2018, foram realizados os 51.º, 52.º, 53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional, que decorreram em Algoso (concelho de Vimioso), Uva (concelho de Vimioso) e Aldeia Nova (concelho de Miranda do Douro), respetivamente.

O 51.º CTVI teve como objetivo recuperar o telhado de uma curriça nas encostas do Rio Angueira, em Algoso, e decorreu entre os dias 16 e 27 de abril de 2018. Neste campo de trabalho, que resultou de uma parceira realizada com a Union Rempart, em França, e a União de Freguesias de Algoso, Campo de Víboras e Uva, participaram oito jovens voluntários franceses, estudantes dos 2.º e 3.º anos do curso de Arquitetura.

A curriça é uma estrutura simples construída com pedras e que se localiza sobretudo no meio dos montes. Servia outrora para guardar o gado pequeno ou para a pernoita de animais e/ou pessoas. É um ícone arquitetónico que está associado ao mundo rural e às suas atividades. 

No âmbito da participação nesta iniciativa, os (as) voluntários (as) tiveram a oportunidade de aprender com o formador Manuel Gomes o processo de reparação de um telhado, desde a recolha, seleção e limpeza das madeiras e telhas à construção e colocação da estrutura de madeira de suporte ao telhado e posterior assentamento das vigas, dos caibros, das ripas e, finalmente, das telhas.

O grupo de voluntários foi sempre acompanhado e coordenado no terreno por três monitores da Palombar. Os participantes puderam também desfrutar de momentos de lazer, durante os quais conheceram e exploraram de forma mais ampla as paisagens, cultura e tradições transmontanas.

O 52.º CTVI, que se realizou entre os dias 2 e 13 de julho de 2018, foi dedicado à recuperação de um pombal tradicional na aldeia de Uva. Este campo de trabalho também foi realizado em parceria com a Union Rempart e com a União de Freguesias de Algoso, Campo de Víboras e Uva.

Participaram no campo de trabalho cinco voluntários, quatro de França e um de Itália. Nuno Martins foi o formador que transmitiu aos participantes as técnicas tradicionais de construção de um pombal tradicional.

Durante a atividade, foi recuperada a parede de um pombal, tendo sido rebocada também uma parede externa do quintal da casa dos voluntários, também na aldeia de Uva, com a técnica do reboco tradicional feito à base de areia e cal. Os voluntários pintaram ainda o exterior de um pombal tradicional.

Os pombais tradicionais são um património emblemático da região do Nordeste Transmontano. Pontilham a paisagem com a sua alva singeleza e estão fortemente associados à comunidade rural, que outrora usava os pombos juvenis (borrachos) para alimentação, sendo esta uma fonte adicional de proteína para os habitantes locais. Já o estrume dos pombos, considerado de elevado valor fertilizante e denominado por “pombinho” pelos aldeões, era usado para fertilizar os solos agrícolas.

Os pombais são também estruturas que contribuem para a proteção da biodiversidade, visto que os pombos fazem parte, por exemplo, da dieta da águia-perdigueira ou águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), que tem um estatuto de conservação “Em perigo”, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Ao promover a sua reconstrução e conservação, estamos a contribuir não só para manter vivo o património ancestral construído, como também para proteger a biodiversidade local.

Os 53.º e 54.º CTVI realizaram-se em simultâneo, entre os dias 20 de agosto a 14 de setembro, no Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova. Estes CTVI tiveram como parceiros a Câmara Municipal de Miranda do Douro, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e também a Union Rempart.

No total, participaram nestes CTVI 14 voluntários de cinco nacionalidades: argelina, brasileira, francesa, italiana e portuguesa. Os trabalhos de escavação arqueológica realizados no Castro de São João das Arribas foram coordenados por Susana Cosme e dirigidos por Mónica Salgado e Pedro Pereira. Integraram o grupo de voluntários estudantes de arqueologia e outros voluntários sem experiência em arqueologia, mas com interesse na área. 

Durante estes CTVI, os participantes aprenderam os procedimentos e técnicas associados às escavações arqueológicas, como limpeza das zonas a escavar; decapagem: escavação, remoção de terras e recolha de espólio arqueológico; lavagem de espólio arqueológico; montagem de quadrículas e aprendizagem e levantamento do sistema de cotas.

O Castro de São João das Arribas está classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, e DG n.º 136, de 23-06-1910. A zona deste Castro consiste num “povoado fortificado assente sobre um promontório, cujo sistema defensivo é composto por duas linhas de muralha e um torreão, o colo de acesso é protegido por muralha e provavelmente um fosso. Os vestígios de romanização são abundantes e incluem um elevado número de epígrafes. Corresponde ao local onde ergue atualmente o pequeno santuário de São João das Arribas”, descreve o site Rota da Terra Fria Transmontana. Esta é uma zona de elevado interesse arqueológico e de uma riqueza paisagística única em Portugal, com vista para o Rio Douro e o desenho íngreme e vertiginoso das suas arribas.   

Em todos os campos de trabalho, além das atividades associadas à reconstrução/recuperação do património arquitetónico e arqueológico, os voluntários também estiveram envolvidos na manutenção e logística dos campos de trabalho, momentos que visaram fomentar o sentimento de partilha e entreajuda, essenciais à vida comunitária.

No âmbito da realização dos CTVI, foram ainda organizadas visitas a centros, museus e locais icónicos do Nordeste Transmontano, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a região e o seu património natural, cultural e edificado, e ainda de enriquecer esta experiência única, proporcionando aos voluntários o contacto direto com as comunidades locais e o intercâmbio geracional e cultural.

Assim, foram realizadas visitas ao Centro Interpretativo dos Pombais Tradicionais (na sede da Palombar, em Uva, Vimioso); Centro de Valorização do Burro de Miranda (AEPGA- Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, em Atenor, Miranda do Douro); Centro de Acolhimento do Burro de Miranda (AEPGA, em Pena Branca, Miranda do Douro); Museu da Terra de Miranda, Concatedral e centro histórico de Miranda do Douro; Ecomuseu Terra Mater e Fraga de l Puio (em Picote, Miranda do Douro); Castelo de Algoso (em Algoso, Vimioso) e Minas de Santo Adrião (em Vimioso/Miranda do Douro).

Os voluntários puderam ainda participar na Feira do Naso (Santuário do Naso, na Póvoa, Miranda do Douro), em sessões de observação de aves, banhos no Rio Angueira, entre outras atividades.

A Palombar agradece a todos os parceiros e formadores que estiveram envolvidos na organização dos CTVI e, principalmente, aos (às) voluntários (as) que participaram nos campos, que são quem lhes dão vida e sentido. Acreditamos que só com a participação e envolvimento de todos (as) seremos capazes de manter vivo e dinâmico a nosso património cultural, natural e construído.