LIFE Rupis: populações das principais presas da águia-perdigueira mantêm-se estáveis no período 2016-2017

As populações das principais presas da águia-perdigueira (Aquila fasciata), mantiveram-se relativamente estáveis entre o período 2016-2017, de acordo com dados provisórios do Relatório de Progresso da Ação D3 do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro”, relativa à monitorização das populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), perdiz-vermelha (Alectoris rufa) e pombo-das-rochas (Columba livia).

Águia-perdigueira ( Aquila fasciata)

Águia-perdigueira (Aquila fasciata)

Os resultados das campanhas de monitorização já realizadas no âmbito da Ação D3, bem como os dados de comparação com os resultados obtidos no contexto da Ação A4 (estudo de base realizado em 2016 para estimar a abundância inicial de presas da águia-perdigueira na área de intervenção do projeto LIFE Rupis), mostram que a situação populacional geral das principais espécies de presas da Aquila fasciata no Parque Natural do Douro Internacional está estável, embora o tamanho das suas populações ainda seja atualmente reduzido. No entanto, estão já a ser implementadas medidas na área do projeto para tentar reverter este cenário pela Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, pela ATNatureza – Associação Transumância e Natureza, pela Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León e pela JCyL - Junta de Castilla y León, parceiros do LIFE Rupis, para aumentar as populações dessas espécies presas, nomeadamente a gestão do habitat da perdiz-vermelha e do coelho-bravo (parcelas com sementeiras e clareiras) e o repovoamento de pombais tradicionais com pombos-das-rochas, cujos efeitos ainda não foram passíveis de avaliar no âmbito deste relatório.

Os dados indicam também que a abundância do coelho-bravo, perdiz-vermelha e pombo-das-rochas não é homogénea em toda a área do Parque Natural do Douro Internacional e do Parque Natural Arribes del Duero, bem como dentro dos territórios da águia-perdigueira. Essas espécies estão relativamente bem distribuídas em toda a área do projeto, estando presentes em níveis sub-ótimos de abundância em vários locais e/ou possuem um padrão de distribuição fragmentado (por exemplo, o coelho-bravo).

Ficha de campo utilizada na monitorização das populações de lagomorfos.

Ficha de campo utilizada na monitorização das populações de lagomorfos.

A abundância relativa de latrinas de coelho-bravo (usada como indicador da abundância de coelhos) foi muito baixa na maioria das áreas amostradas, sugerindo uma reduzida disponibilidade desta espécie para a águia-perdigueira na área do projeto.

No que se refere à perdiz-vermelha, foi registada a sua presença em todos os territórios amostrados, porém a sua abundância relativa foi sobretudo baixa no Parque Natural do Douro Internacional. No geral, os resultados obtidos no lado português foram semelhantes aos reportados pelo parceiro espanhol no Parque Natural Arribes del Duero.

Perdiz-vermelha (Alectoris rufa).

Perdiz-vermelha (Alectoris rufa).

Relativamente ao pombo-das-rochas, cujos censos avaliaram tanto a sua população selvagem quanto a feral, também esteve presente em todos os territórios monitorizados, mas a sua abundância foi muito variável em toda a área do Douro Internacional. Esta espécie mostrou ser relativamente abundante em determinados territórios, enquanto noutros a sua presença foi escassa.

No geral, as populações de coelho-bravo, perdiz-vermelha e pombo-das-rochas permaneceram relativamente estáveis entre os anos de amostragem (ações A4 e D3) nos Parques Naturais do Douro Internacional e Arribes del Duero, apesar das flutuações interanuais e de algumas alterações locais na sua abundância. É necessário, contudo, dar continuidade, nos próximos anos, à realização de censos para avaliar de forma mais robusta e aprofundada o tamanho e a dinâmica das suas populações.

A situação atual das principais espécies de presas da águia-perdigueira em alguns territórios indicam que há necessidade de continuar a implementar ações específicas no terreno, nomeadamente promover a recuperação e a gestão de pombais tradicionais, a fim de aumentar a abundância de pombos-das-rochas (ação C4) e assegurar a gestão de habitats para a recuperação de populações de perdiz e coelho-bravo (ação C5), bem como fomentar uma adequada gestão cinegética dessas espécies.

Monitorização das populações de lagomorfos na área de implementação do LIFE Rupis.

Monitorização das populações de lagomorfos na área de implementação do LIFE Rupis.

O relatório mostrou ainda que é preciso implementar medidas para avaliar 1) o efeito das ações de gestão do habitat já implementadas sobre a abundância de presas selvagens e 2) o efeito da disponibilidade de presas para a população, a dinâmica e o desempenho reprodutivo da águia-perdigueira na área do projeto. Tais análises devem integrar dados tanto do lado português quanto espanhol. No que se refere ao ponto 1), as amostragens para estimar a abundância de coelho-bravo e perdiz no ano de 2018 (ou seja, segundo ano de implementação da ação D3) foram delineadas com esse propósito. Os resultados estarão disponíveis em breve e farão parte de um relatório futuro. Relativamente ao ponto 2), a avaliação da disponibilidade de presas também deve incluir a abundância de outras espécies relevantes na dieta da águia-perdigueira, como a pega-azul (Cyanopica cyanus), o pombo-torcaz (Columba palumbus), o estorninho-malhado (Sturnus vulgaris) e várias espécies da família Turdidae.

O “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt) é um projeto de conservação transfronteiriço, entre Portugal e Espanha, cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia. Para além da componente de conservação da natureza, desenvolve diversas atividades de promoção da região do Parque Natural do Douro Internacional, dos seus valores naturais e do seu potencial para o turismo ornitológico. Coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o projeto LIFE Rupis tem como parceiros: a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a ATNatureza - Associação Transumância e Natureza, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Junta de Castilla y León, a Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León, a Vulture Conservation Foundation (VCF), a EDP Distribuição e a Guarda Nacional Republicana (GNR).

Na região transfronteiriça do vale do Douro, área de intervenção do projeto LIFE Rupis, o número de casais de águia-perdigueira permaneceu estável na última década (13–14 casais reprodutores desde 2006), no entanto, o seu sucesso reprodutor diminuiu de 8 crias voadoras, em 2006, para apenas 4, em 2013. Um dos principais objetivos do projeto LIFE Rupis é inverter esta tendência.

Os baixos valores de sucesso reprodutor da espécie verificados na região têm sido associados, em parte, à reduzida disponibilidade de espécies como o coelho-bravo, a perdiz-vermelha e o pombo-das-rochas. Estas são as principais espécies de presas da águia-perdigueira na Península Ibérica, tanto durante a época de reprodução, como no período não reprodutivo, como atestam vários estudos já realizados.

As populações dessas espécies de presas diminuíram drasticamente em muitas regiões da Península Ibérica como resultado de mudanças no uso do solo, surtos de doenças e/ou gestão inadequada da caça, gerando consequências negativas para uma grande comunidade de predadores vertebrados, incluindo a águia-perdigueira.

A relativa escassez das suas principais presas em muitas áreas do vale do Douro forçou as águia-perdigueira a diversificaram a sua alimentação e a procurarem outras fontes de alimento como passeriformes de médio a grande porte e répteis (as quais poderão representar presas sub-ótimas em termos energéticos).

A gestão e a conservação eficazes das principais presas da águia-perdigueira são, portanto, cruciais para a viabilidade populacional desta ave de rapina no vale do Douro. Diversas ações focadas na recuperação e no reforço das populações dessas espécies na região são de importância fulcral no contexto do projeto LIFE Rupis, com vista a aumentar a disponibilidade de presas para a águia-perdigueira.

As ações direcionadas para assegurar a melhoria da qualidade do habitat do coelho-bravo e da perdiz-vermelha (ações C5 e C6), por um lado, e para promover a recuperação de pombais tradicionais e repovoamento com pombo-das-rochas (ação C4), por outro, são algumas das ações de conservação/gestão que já estão a ser implementadas.

Adicionalmente, será realizada ainda uma avaliação da distribuição e abundância das principais presas da águia-perdigueira (ações A4 e D3) e a monitorização das suas tendências populacionais (ação D3), medidas que são fundamentais para aferir sobre o estado dessas populações na área do projeto, bem como para avaliar o sucesso das ações de conservação/gestão realizadas.

O Relatório de Progresso completo da Ação D3 do projeto ‘LIFE Rupis’ pode ser consultado aqui.

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