Mixomatose: registados primeiros casos da doença em lebres em Portugal

A mixomatose, uma doença viral que tem contribuído para dizimar milhares de coelhos selvagens em Portugal nos últimos anos, ameaça agora também as populações de lebres no território nacional.

Em novembro deste ano, foram registados os primeiros dois casos de mixomatose em lebres em Portugal, confirmados por análise laboratorial, segundo indicou o INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária em boletins informativos publicados no seu website.

 Lebre-ibérica ( Lepus granatensis )

Lebre-ibérica (Lepus granatensis)

A doença já tinha sido amplamente reportada nos últimos meses na lebre-ibérica (Lepus granatensis) em várias Comunidades Autónomas em Espanha, sobretudo em zonas de caça na Andaluzia, Castilla-La Mancha, Extremadura, Madrid e Múrcia. Mais de 140 casos de lebres com mixomatose foram já confirmados no país vizinho. A doença tem afetado ainda a lebre-europeia (Lepus europaeus), especialmente no Reino Unido.

“No âmbito da vigilância sanitária do Projeto +Coelho, que decorre desde agosto de 2017, foi confirmado no Laboratório de Virologia do INIAV, em Oeiras, por testes moleculares, o diagnóstico de mixomatose numa lebre caçada no dia 28 de outubro de 2018, em zona de caça do concelho de Évora”, informou o instituto num boletim informativo. O animal, uma fêmea adulta com boa condição corporal, apresentava conjuntivite purulenta, edema das pálpebras e das regiões anal e vulvar. Este é o primeiro caso de mixomatose registado em lebre-ibérica em Portugal, confirmado em laboratório.

Segundo indicou o INIAV, a doença nesta lebre foi notificada à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), autoridade nacional para as doenças dos animais. Apesar de não ter importância para a saúde pública, a mixomatose é uma doença de declaração obrigatória.

O segundo caso de mixomatose em lebre-ibérica em Portugal foi também confirmado pelo INIAV, através de análise laboratorial. Os técnicos do instituto deram um diagnóstico positivo para mixomatose a uma lebre encontrada morta em zona de caça do concelho de Beja, no dia 3 de novembro de 2018. Tratou-se de um macho adulto, com boa condição corporal, que apresentava conjuntivite e lesões nodulares nas pálpebras e focinho.

A mixomatose é uma doença típica de coelhos selvagens, podendo também afetar coelhos domésticos, causada pelo vírus myxoma, que é transmitido por contacto direto, indireto ou por vetores, como insetos ou parasitas, os quais, quando entram em contacto com um coelho infetado, tornam-se agentes de transmissão viral.

Pulgas e mosquitos são normalmente os principais vetores da patologia, que regista picos sobretudo durante o verão, quando a população de vetores é maior e está mais ativa.

A eliminação de milhares de coelhos selvagens pela mixomatose, mas também pela doença hemorrágica viral, gerou um forte impacto sobre populações de espécies predadoras que se alimentam destes lagomorfos, como aves de rapina com estatuto de conservação delicado, nomeadamente a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) e a águia-de-Bonelli (Aquila fasciata), e o caso emblemático do lince-ibérico (Lynx pardinus). Agora, a doença ameaça também as populações de lebre-ibérica, que é igualmente uma espécie-presa de muitos animais selvagens com estatuto de conservação delicado no território nacional.

Para fazer face à incidência e à prevalência desta doença viral e fatal, é fundamental promover a monitorização das populações de lagomorfos de modo a detetar a existência de animais doentes e travar os processos de contaminação, assegurando, desta forma, condições higieno-sanitárias para as espécies afetadas por esta patologia e outras.

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural tem desenvolvido, nos últimos anos, ações de monitorização de populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) na região de Trás-os-Montes, através, por exemplo, da sua participação no projeto SOS Coelho coordenado pelo CIBIO-InBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto e pela ANPC - Associação Nacional de Proprietários e Produtores de Caça.

Este projeto teve como objetivo principal combater a doença hemorrágica viral (DHV) dos coelhos e estudar as suas causas e mecanismos de ação, mas também outras doenças víricas que afetam a espécie, como é o caso da mixomatose, através da criação de uma rede de epidemiovigilâcia para assegurar o controlo sanitário das populações de coelho-bravo.

 Também no âmbito do projeto LIFE Rupis (www.rupis.pt) e do Grupo Nordeste, a Palombar monitoriza populações de lagomorfos (coelho-bravo e lebres) em várias zonas do Nordeste Transmontano, bem como implementa medidas que visam assegurar o aumento das suas populações, com indivíduos saudáveis, através da criação de sementeiras, clareiras e pontos de água.