Ave de rapina ameaçada na Europa avistada no Nordeste Transmontano

Uma águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) juvenil foi avistada recentemente no Nordeste Transmontano, o que poderá ser um sinal do seu possível retorno a esta região do país. Esta espécie está restrita como nidificante em Portugal e em Espanha, constituindo um endemismo da Península Ibérica e é uma das aves de rapina mais ameaçadas da Europa, estando igualmente entre as mais raras do mundo.

A águia-imperial-ibérica foi captada a 4 de setembro por uma das câmaras de foto-armadilhagem colocadas pelos técnicos de monitorização de fauna selvagem da Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, num dos Campos de Alimentação de Aves Necrófagas (CAAN) geridos pela associação no concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança, no âmbito do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt).

 O biólogo e presidente da Palombar, José Pereira, sublinha a importância do avistamento desta espécie no norte do país, bem como a importância dos CAAN para a preservação de várias aves necrófagas em risco não só na Península Ibérica, como também na Europa. “O registo desta espécie a norte do país demonstra que os esforços de conservação da águia-imperial-ibérica que estão a desenvolver no sul do país estão a produzir resultados, a população está a crescer e a aumentar a sua área de dispersão. Ficamos muito satisfeitos e motivados com o trabalho que a Palombar está a desenvolver, nomeadamente ao nível do reforço da rede de campos de alimentação para aves necrófagas, que tem vindo a crescer e que permite um aumento da disponiblidade alimentar para estas espécies e promove a conectividade entre as áreas protegidas”, destacou.

Nos finais da década de 70 e inícios dos anos 80, a população reprodutora da espécie Aquila adalberti desapareceu em Portugal e a nidificação só voltou a ser confirmada em 2003 na região do Tejo Internacional.

Fruto de vários esforços de conservação que têm vindo a ser dedicados a esta espécie, ela tem vindo a colonizar lentamente o território nacional. Em 2018, a população nacional nidificante totalizou 17 casais distribuídos pelas regiões da Beira Baixa, Alto Alentejo e Baixo Alentejo, sendo que esta espécie ainda apresenta, em território nacional, o estatuto de conservação mais preocupante: “Criticamente em Perigo”, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Está também atualmente classificada como “Em Perigo” no Livro Vermelho das Aves de Espanha e ainda como “Vulnerável” pela Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza.

O tamanho da sua população reprodutora é tão reduzido que existe um elevado risco de extinção da espécie face ao aparecimento, por exemplo, de uma doença, por redução significativa da população devido a alta mortalidade e períodos consecutivos de baixa produtividade e/ou por deterioração genética (devido à possível reprodução entre indivíduos da mesma “linhagem”, diminuindo a viabilidade e a diversidade genética da espécie), de acordo com dados do projeto “LIFE Imperial Conservação da Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) em Portugal” (www.lifeimperial.lpn.pt).

Segundo destacaram os especialistas do projeto “LIFE Imperial” numa publicação na rede social Facebook, a propósito do avistamento desta águia juvenil, “é muito raro receber dados de observações da espécie tão a norte do país”.

“Este registo demonstra também a elevada importância destes locais [CAAN] para a conservação das aves necrófagas, mesmo que ocasionais, como é o caso da águia-imperial (particularmente os indivíduos imaturos)”, acrescentaram ainda.

Sobre o projeto LIFE Rupis

O “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt) é um projeto de conservação transfronteiriço, com a duração de quatro anos (2015 – 2019), cofinanciado através do programa LIFE da Comissão Europeia.

O projeto “LIFE Rupis” é coordenado pela Sociedade Portuguesa Para o Estudo das Aves (SPEA) e conta com vários parceiros nacionais e internacionais, entre os quais a Palombar.

O projeto, que decorre em território português e espanhol, mais concretamente na Zona de Proteção Especial (ZPE) Douro Internacional e Vale do Águeda e na Zona de Especial Protección para las Aves (ZEPA) Arribes del Duero, pretende implementar ações que visam reforçar as populações de duas espécies prioritárias da Diretiva Aves nesta região, nomeadamente o britango (Neophron percnopterus) e a águia-perdigueira (Aquila fasciata), através da redução da sua mortalidade e do aumento do seu sucesso reprodutor.

As ações do “LIFE Rupis” beneficiam também outras espécies com estatuto de conservação igualmente desfavorável, como é o caso agora registado da águia-imperial-ibérica, e ainda o abutre-preto (Aegypius monachus) e o milhafre-real (Milvus milvus). As populações de todas estas espécies encontram-se em declínio, estando globalmente ameaçadas, em particular na Península Ibérica.

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