Voluntariado na Palombar em Trás-os-Montes: “Fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades”

A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural acolheu a voluntária francesa Juliette Verduzier, entre os dias 23 de julho de 2018 e 23 de janeiro de 2019, ao abrigo do projeto de voluntariado intitulado "Promoção e Valorização do Património Rural e Ambiental em Portugal", desenvolvido em parceria com a associação Union Rempart, em França, no âmbito do Serviço Cívico Francês.

Juliette Verduzier

Juliette Verduzier

Juliette Verduzier é licenciada em Design, tem 21 anos, e as suas principais áreas de interesse são a natureza, a ruralidade, as artes, a vida comunitária e as construções ecológicas. Durante a sua missão de voluntariado na Palombar, a voluntária residiu na aldeia de Uva (Vimioso), distrito de Bragança, e participou em vários projetos de dinamização e conservação do mundo rural, nomeadamente em iniciativas de recuperação e manutenção do património construído, campos de trabalho voluntário com foco em escavações arqueológicas, monitorização de fauna silvestre, recolha de memórias locais, vigilância de incêndios, manutenção de viveiros e atividades culturais organizadas pela associação.

No âmbito do festival L Burro i L Gueiteiro de 2018, Juliette Verduzier esteve integrada na equipa de logística do evento e teve a possibilidade de contactar com as comunidades e a cultura locais. “Quando cheguei, estava a decorrer este festival, que me proporcionou uma entrada festiva no mundo transmontano, onde pude colaborar através da instalação de barracas, participar em caminhadas com burros e descobrir a música da gaita de fole”, descreve a voluntária num testemunho que escreveu sobre a sua experiência em Portugal.

Juliette Verduzier foi também monitora nos 53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI), dedicados à escavação arqueológica, que se realizaram entre os dias 20 de agosto e 14 de setembro de 2018, no Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova (Miranda do Douro). Deu apoio nas atividades de escavações arqueológicas e coordenou grupos nas atividades de lazer. Estes CTVI tiveram como parceiros a Câmara Municipal de Miranda do Douro, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e também a Union Rempart. “Esta foi uma experiência muita enriquecedora em que pude aprender novas valências”, afirmou.

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

53.º e 54.º Campos de Trabalho Voluntário Internacional

A voluntária realizou uma recolha de memórias dos habitantes locais sobre os pombais tradicionais, através do registo de testemunhos orais. Ajudou igualmente em trabalhos de recuperação, manutenção e repovoamento dessas estruturas arquitetónicas, nomeadamente em Miranda do Douro, realizados pela equipa da Palombar. “Gostei particularmente de aprender sobre técnicas tradicionais de construção e de descobrir a sabedoria local que estas revelam. Compreendi ainda a importância de recuperar os pombais tradicionais, dando-lhes uma nova utilidade. A Palombar utiliza esses pombais como uma ‘ferramenta’ de conservação da águia-de-Bonelli, que se alimenta de pombos”, disse Juliette.

Recuperação de um pombal tradicional em Miranda do Douro.

Recuperação de um pombal tradicional em Miranda do Douro.

Com proprietária de pombais tradicionais.

Com proprietária de pombais tradicionais.

A missão voluntária na Palombar também incluiu a participação em ações de monitorização da fauna selvagem, através da colocação de máquinas de fotoarmadilhagem, censos de perdiz e coelho-bravo, bem como a manutenção de Campos de Alimentação para Aves Necrófagas (CAAN). “Durante a minha missão, acompanhei vários técnicos da Palombar durante diversos trabalhos realizados na região de Trás-os-Montes, nomeadamente em atividades de monitorização de espécies de animais no campo. Descobri, ao mesmo tempo, a diversidade das paisagens transmontanas: a sua fauna e flora, sobre as quais aprendi muito com as preciosas explicações dadas pelos biólogos da equipa”, sublinhou a voluntária.

Esteve ainda envolvida na vigilância de incêndios e na manutenção de sementeiras no viveiro florestal da Palombar. Durante a missão de voluntariado, “fui sensibilizada para questões relacionadas com a falta de água e com os incêndios, problemas que não temos na minha região em França”, destacou Juliette Verduzier.

Participou também no intercâmbio ‘Melhores Práticas para um Futuro Ético e Sustentável através do Turismo Rural’, promovido pelo Centro de Acolhimento do Burro e pela AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. Este projeto de intercâmbio sobre boas práticas de turismo ético e sustentável foi financiado pelo programa Erasmus+ Juventude em Ação e teve como parceiros o Linking Tourism & Conservation (Noruega) e a Cryosanabria (Espanha). Decorreu entre os dias 8 e 20 de novembro de 2018 e contou com participantes de várias nacionalidades.

A voluntária desenvolveu, adicionalmente, um Projeto Individual, que consistiu na criação de conteúdos e produtos de design direcionados para a divulgação dos trabalhos de recuperação e manutenção dos pombais tradicionais e da sua ecologia, bem como para a consciencialização sobre os perigos subjacentes ao uso de venenos para matar animais.

Desenho para GIF sobre pombais.

Desenho para GIF sobre pombais.

Desenho para GIF sobre uso de veneno.

Desenho para GIF sobre uso de veneno.

A jovem francesa afirmou que a missão de voluntariado na Palombar foi muito “enriquecedora” e ajudou a “desenvolver capacidades pessoais e a ganhar independência”. Destacou ainda que estar presente ativamente numa comunidade em Trás-os-Montes foi uma forma de “lutar contra a desertificação rural” e que “fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades”.

Leia na íntegra o testemunho de Juliette Verduzier sobre a sua missão de voluntariado na Palombar em Trás-os-Montes.

 TESTEMUNHO

Depois de terminar a minha licenciatura em Design (interior, cenografia e paisagismo), senti a necessidade de experimentar outras formas de aprender fora da Escola Superior onde estudei, no terreno mais concreto, a fazer coisas diferentes.  

Ao procurar por novas experiências, descobri o Serviço Cívico Francês e a missão, em Portugal, proposta pela Union Rempart, em parceria com a Palombar, intitulada "Promoção e Valorização do Património Rural e Ambiental em Portugal". Pareceu-me a oportunidade perfeita para participar ativamente em iniciativas de recuperação do património rural e atuar realmente no terreno, bem como para perceber melhor as dinâmicas do mundo rural, que me interessam muito, estando inserida numa comunidade.

Cheguei à aldeia de Uva, no concelho de Vimioso, distrito de Bragança, no dia 23 de julho de 2018, em pleno verão, ou seja, no período do ano mais ativo da associação. A Palombar organiza, todos os anos, o festival itinerante L Burro i L Gueiteiro, em parceria com a AEPGA - Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. Quando cheguei, estava a decorrer este festival, que me proporcionou uma entrada festiva no mundo trasmontano, onde pude colaborar através da instalação de barracas, participar em caminhadas com burros e descobrir a música da gaita de fole. 

O verão é também a altura do ano em que decorrem os Campos de Trabalho Voluntário Internacional (CTVI) organismos pela Palombar e nos quais participei como animadora. O programa dos CTVI em que participei incluía escavar ruínas romanas e visitar a região de Trás-os-Montes com grupos internacionais. No âmbito dos CTVI, fiquei responsável, pela primeira vez, pela coordenação de um grupo de pessoas, tendo sido esta uma experiência muita enriquecedora em que pude aprender novas valências.

Durante a minha missão, gostei particularmente de aprender sobre técnicas tradicionais de construção e de descobrir a sabedoria local que estas revelam. Os pombais (que dão origem ao nome da associação Palombar, que significa pombal em Mirandês) são um símbolo do uso eficiente e sustentável dos recursos naturais, nomeadamente da terra. Foi importante para mim criar ilustrações que revelam para que servem os pombais, bem como o valor deste património local. Também participei na recolha de memórias dos donos de pombais, os quais explicaram a utilidade dessas estruturas no passado.

Compreendi ainda a importância de recuperar os pombais tradicionais, dando-lhes uma nova utilidade. A Palombar utiliza esses pombais como uma ‘ferramenta’ de conservação da águia-de-Bonelli, que se alimenta de pombos. Além de recuperar e manter essas estruturas, a associação repovoa-os com pombos saudáveis, alimenta-os, e cuida também da sua saúde. Aproveita ainda o estrume produzido pelos pombos, que é transformado em fertilizante. 

No âmbito da minha missão, acompanhei vários técnicos da Palombar durante diversos trabalhos realizados na região de Trás-os-Montes, nomeadamente em atividades de monitorização de espécies de animais no campo. Descobri, ao mesmo tempo, a diversidade das paisagens transmontanas: a sua fauna e flora, sobre as quais aprendi muito com as preciosas explicações dadas pelos biólogos da equipa, as suas terras cultivadas, até mesmo em lugares muito inacessíveis, e o seu horizonte sem fim. Nesta paisagem onde predomina a agricultura familiar de subsistência, há um ritmo de vida marcado por diferentes colheitas e produções da terra.

Viver nesse “mundo”, conhecer as suas gentes, aprender a sua língua e descobrir o seu modo de vida proporcionou-me uma imensa alegria. Esse processo de adaptação a uma outra cultura é muito enriquecedor e permite desenvolver capacidades pessoais e ganhar independência.

Fui muito bem acolhida pela população local. Senti, todos os dias, que os habitantes de Uva estavam contentes por ver pessoas novas na sua aldeia, sobretudo jovens. A minha presença em Uva, assim como a de outros voluntários e de toda a equipa da Palombar, ajuda muito a dinamizar e a dar vida à aldeia, bem como a lutar contra a desertificação rural. Fazer parte desta dinâmica é gratificante e dá sentido ao conceito de serviço cívico: servir as comunidades.

 Juliette Verduzier, 18 de dezembro de 2018

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