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7 Abril 2026

Dia de Campo e Formação reúne especialistas e agricultores com foco nos cereais e produção nacional

Dia de Campo e Formação reúne especialistas e agricultores com foco nos cereais e produção nacional

Dia de Campo e Formação em Cereais reuniu mais de 50 pessoas em Mirandela. Fotografia Palombar.

Projeto LIFE SOS Pygargus capacita agricultores e dinamiza criação de uma organização de produtores de cereais no Norte

O Dia de Campo e Formação em Cereais organizado no âmbito do projeto LIFE SOS Pygargus reuniu mais de 50 pessoas em Mirandela, no distrito de Bragança, no dia 26 de março. A iniciativa esteve a cargo da ANPOC - Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, do IPB/ESA - Instituto Politécnico de Beja e Escola Superior Agrária e do Polo de Elvas do INIAV - Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, em conjunto com os parceiros locais Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural, entidade coordenadora do projeto, AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, IPB - Instituto Politécnico de Bragança e CCDR Norte - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.

O número de participantes, maioritariamente agricultores, especialistas e técnicos ligados ao mundo rural e ao setor agrícola, revela o grande interesse da região pelos cereais e temas relacionados com a competitividade e valorização da produção cerealífera nacional.

A ação de Formação Técnica em Cereais teve um carácter eminentemente prático e adaptado à realidade do Norte e serviu, igualmente, para divulgar e dinamizar a criação de uma Organização de Produtores de Cereais na região, que será essencial para realavancar o setor.

Manhã teórica marcada por contributos de especialistas e agricultores

O Dia de Campo e Formação ficou marcado por dois momentos distintos. Durante a manhã, os trabalhos tiveram lugar na Biblioteca Municipal de Mirandela. A abertura dos trabalhos foi feita pelo Presidente da Câmara Municipal de Mirandela, Vítor Correia, seguida de intervenções institucionais do Vice-Presidente para a Agricultura e Pescas da CCDR NORTE, Paulo de Sousa Ramalho, da Pró-Presidente do Instituto Politécnico de Bragança, Anabela Martins, do Diretor do Polo de Elvas do INIAV, António Cordeiro, e do Vice-Presidente da ANPOC, Bernardo Albino.


Abertura dos trabalhos na Biblioteca Municipal de Mirandela. Fotografia Palombar.


O programa técnico iniciou-se com a intervenção de Manuel Ângelo Rodrigues, do Instituto Politécnico de Bragança, que abordou a ecofisiologia dos cereais; seguindo-se apresentações de Nuno Pinheiro, do INIAV, sobre a importância das variedades e da data de sementeira; Manuel Patanita, do Instituto Politécnico de Beja, sobre rotação cultural, e Paula Rodrigues, da ADP Fertilizantes, sobre estratégias de fertilização.

A formação contou igualmente com contributos fundamentais de agricultores de Trás-os-Montes e do Alentejo, que partilharam as suas experiências, questões e desafios, promovendo uma discussão muito profícua e participada sobre competitividade, valorização dos cereais e a importância da criação de uma organização de produtores para dinamizar o setor na região.

Formação contou com contributos fundamentais de agricultores de Trás-os-Montes e do Alentejo. Fotografia Palombar.

Projeto LIFE SOS Pygargus entregou Certificado de Reconhecimento à Moagem do Loreto


O período da manhã também ficou marcado pela entrega, por parte do projeto LIFE SOS Pygargus, de um Certificado de Reconhecimento à Moagem do Loreto pelo centenário da unidade fabril com sede em Bragança, assinalado precisamente no dia 26 de março.

O Certificado foi entregue pelos responsáveis do projeto a Luís Afonso, proprietário da Moageira, que também participou ativamente na iniciativa de formação de cereais.


Projeto LIFE SOS Pygargus entregou Certificado de Reconhecimento à Moagem do Loreto pelos 100 anos da unidade fabril e importância estratégica. Fotografia Palombar.


O projeto decidiu atribuir este certificado à Moagem do Loreto pela sua capacidade de resiliência ao longo do tempo, mantendo-se ativa num século de história, apesar de todas as adversidades, bem como pelo papel estratégico que o setor moageiro tem para toda a cadeia produtiva ligada aos cereais e à conservação do tartaranhão-caçador.

Tarde nos campos de ensaios com exercícios práticos no terreno

Após o almoço e um momento importante de networking entre os participantes, a parte da tarde teve lugar na Quinta do Valongo, pertencente ao Polo de Inovação de Mirandela da CCDR Norte, onde estão a decorrer os ensaios de variedades de cereais do projeto LIFE SOS Pygargus em Trás-os-Montes. A presença no terreno permitiu aos participantes realizarem, em grupos, exercícios práticos de identificação fenológica, estimativa da produção e cálculo da densidade de sementeira, reforçando a componente aplicada da iniciativa.

Talhões cultivados com variedades de cereais avaliados nos ensaios realizados por investigadores do INIAV, na Quinta do Valongo, pertencente ao Polo de Inovação de Mirandela da CCDR-Norte.



Formação prática no terreno com especialistas da ANPOC e INIAV. Fotografia Palombar.



Avaliação das culturas de cereais dos ensaios realizados na Quinta do Valongo, em Mirandela. Fotografia Palombar. 


A voz de quem (ainda) cultiva searas e é semente de esperança

Albertina Pires, 68 anos, foi uma das agricultoras transmontanas que participou na formação. A guardiã das sementes ancestrais de variedades de trigo nacionais, que ainda crescem nos seus terrenos, considera fundamentais estas iniciativas que capacitam os agricultores locais, permitindo aliar o saber empírico transmitido de geração em geração, com os conhecimentos científico e técnico.

"As experiências que estão a ser feitas na Quinta do Valongo são muito úteis porque eu nunca me tinha dado ao cuidado de contar as espiguetas e os afilhamentos do cereal para calcular e estimar, logo, aquilo que vamos colher. E é muito importante avaliar o estado e a produtividade da sementeira para ter uma ideia do rendimento que vamos ter. É uma ferramenta essencial”, considerou Albertina Pires, uma das poucas agricultoras que, juntamente com o marido, ainda faz sementeiras de cereais de variedades tradicionais de trigo da região. “Gostei muito das explicações, de aprender sobre a questão das doenças, nomeadamente sobre a ferrugem, porque nós não sabíamos como tratá-la, bem como sobre o uso adequado de fertilizantes nas culturas”, acrescentou.


Agricultora Albertina Pires na sua sementeira de trigo Barbela na aldeia de Prada, em Vinhais. Fotografia Sara Riso/Palombar.



Albertina Pires a participar ativamente nos exercícios práticos nas sementeiras, em Mirandela. Fotografia Palombar.


Sobre a importância de voltar a cultivar searas em grande escala para (também) salvar uma espécie da extinção, o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), que depende desses campos agrícolas para vingar, unindo agricultores e ambientalistas, Albertina Pires refere que “os agricultores têm muito, por hábito, dizerem que isso só prejudica, essas aves que andam por aí; mas não, nós é que não temos consciência do bem que elas fazem. Porque há muitos insetos, e há de haver muitos bichos que elas comem e que são prejudiciais às nossas culturas”. E tem toda a razão. Um único casal de tartaranhão-caçador caça mais de 1 000 animais prejudiciais às culturas, como ratos e insetos, o que pode potenciar a produtividade das culturas.

O futuro das variedades locais e ancestrais de cereais, como o trigo Barbela e o trigo serôdio, depende dos apoios e dos investimentos que se façam no setor cerealífero, considera a agricultora. Albertina Pires tem um desejo: “Só peço que haja gente nova que goste de continuar esta tarefa. E, se essa gente nova vier, que os apoiem, mais do que fomos apoiados nós, para eles terem vontade de continuar”, defende.

Sobre a formação de cereais

Após o sucesso de oito edições da Formação Técnica de Cereais no Alentejo, e impulsionados pela dinâmica do projeto LIFE SOS Pygargus, a ANPOC, o IPB/ESA e o Polo de Elvas do INIAV, em conjunto com os parceiros locais IPB e a CCDR NORTE, levaram para Trás-os-Montes o modelo de formação que alia a investigação, a academia e o setor. Com um propósito: capacitar quem produz, diretamente no campo, sobre a cultura de cereais que está a decorrer. Pretende-se, assim, sensibilizar os agricultores locais para os constrangimentos da região e para a importância do acompanhamento técnico para uma tomada de decisão informada na produção de cereais. Esta primeira sessão em Trás-os-Montes inaugurou um ciclo de duas ações de formação em cereais, possibilitando o acompanhamento de duas etapas importantes no desenvolvimento das culturas cerealíferas: a fase do encanamento agora em março e, em maio/junho, a fase do enchimento do grão.


Maioria do grupo que organizou o Dia de Campo e Formação de Cereais, no âmbito do projeto LIFE SOS Pygargus. Fotografia Palombar.


Sobre o projeto


O LIFE SOS Pygargus - Ações urgentes de conservação das populações de tartaranhão-caçador em Portugal e Espanha é um projeto ibérico cofinanciado em 75% pelo programa LIFE da União Europeia. Conta igualmente com cofinanciamento da Viridia – Conservation in Action, Lightsource bp, Fundo Ambiental e Fundação Biodiversidade do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha.

É implementado por um consórcio que integra a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural (entidade coordenadora), Associação BIOPOLIS-CIBIO, AEPGA - Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, ANPOC - Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, CCDR-N - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva SA, ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, INIAV - Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, LPN - Liga para a Protecção da Natureza, MC Shared Services SA, Modelo Continente Hipermercados SA, SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vita Nativa - Conservação do Ambiente, AMUS - Acción por el Mundo Salvaje, Consejeria de Agricultura, Ganaderia y Desarrollo Sostenible - Junta de Extremadura, GREFA - Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autóctona y su Hábitat e Universidad de Murcia.