4 Dezembro 2025
O pastor que pastoreia em terra de lobos e aprendeu a conviver com eles

O pastor Miguel Afonso e o seu rebanho. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Quem guarda rebanhos em terra de lobos sabe que a segurança é a palavra de ordem para viver e conviver com o maior predador terrestre da fauna silvestre nacional. Quando Miguel Afonso, 36 anos, decidiu deixar Lisboa, onde vivia, para se instalar em Guadramil, aldeia natal dos pais, no concelho de Bragança, para ser produtor pecuário e pastor, sabia ao que vinha (e queria vir). Constituiu um rebanho de ovelhas, organizou as “tropas” com cães de proteção de gado e fez-se ao monte em pleno Parque Natural de Montesinho, área protegida onde está localizado um dos núcleos populacionais mais importantes de lobo-ibérico (Canis lupus signatus) em Portugal. É, também, em conjunto com o norte da província de Zamora, em Espanha, uma das zonas na Península Ibérica onde há uma das maiores densidades desta subespécie de lobo. Em seis anos de pastorícia, o rebanho de Miguel Afonso nunca sofreu um ataque de lobos. E se um dia sofrer, garante de antemão que não o culpa. Se acontecer, diz convicto: “ou falhei eu, ou falharam os cães”.
Miguel Afonso, criador de gado e pastor. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Seis anos de pastorícia em território de lobos, zero ataques
Foi numa manhã outonal e soalheira do dia 20 de novembro que nos encontrámos com Miguel Afonso num lameiro nos arredores de Rio de Onor, onde costuma pastorear as 214 ovelhas da raça Churra Galega Bragançana que compõem o rebanho que criou quando, em 2019, foi viver para Guadramil, uma das aldeias mais isoladas e despovoadas do país. O local, idílico e ideal para alimentar o gado, é uma área já identificada como território de uma das alcateias de lobos do Parque Natural de Montesinho. O pastor sabia disso, mas sempre foi assim, desde que ali quis pastorear. A tranquilidade e segurança com que fala e age tem um número e um nome: oito cães da raça Cão de Gado Transmontano que nunca deixaram que um lobo ousasse importunar nem o rebanho, nem o seu guardador. E mais um de virar, da raça Border Collie. Nunca sofreu um ataque.
O rebanho é composto por 214 ovelhas da raça Churra Galega Bragançana, brancas e pretas. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
O rebanho pasta habitualmente num lameiro nos arredores da aldeia de Rio de Onor. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
"Mas também não é sempre o lobo que ataca, às vezes, a raposa também pode atacar um cordeiro pequeno, por exemplo", frisa ainda.
Vê, já os viu umas “cinco ou seis vezes” à distância a que a vista os permite reconhecer, mas os cães logo os fizeram marchar. Também eles “desenharam” uma estratégia. Enquanto uns tangem os lobos para longe por entre fragas e montes, e só voltam passado mais de uma hora esbaforidos, mas com sentido de missão cumprida; outros ficam a guardar o rebanho. O afastamento de alguns, não pode deixar as ovelhas desprotegidas. O lobo também tem as suas táticas e a investida poderia ser sorrateira num momento de ausência de guarda. Ter os cães em quantidade necessária para garantir a segurança do rebanho é essencial para conviver em harmonia com o lobo, com respeito pela biodiversidade e partilha de espaço mútuo. O pastor sabe disso e tem-nos em número ideal, considera. Mas não é qualquer cão que é garante desta serventia: tem de ser um cão “funcional”, afirma Miguel Afonso.
“Nunca tive problemas com o lobo, já os vi a cerca de 100, 200 metros, mas os cães dão logo sinal. Só um cão não chega. Tenho oito para 214 ovelhas. Já os vi uns quatro ou cinco juntos, mas, como são muitos cães, não tiveram hipótese. Eles queriam tentar enganar os cães para entrar no meio do gado, mas não conseguiram”, contou o pastor.
Cães-pastores: nascem e crescem entre ovelhas
O cão para proteger o rebanho dos lobos não pode ser qualquer um. Tem de ser cão de gado e tem de “nascer” e crescer entre ovelhas. Passado pouco tempo de nascerem, há que sentir logo o cheiro delas e criar um elo de pertença ao grupo que está na base da sua defesa.
“Nenhum cão veio para aqui adulto. Vieram todos cachorros muito pequenos. Mal chegaram, ou quando as mães os pariram, ficaram logo no meio das ovelhas, vivem e dormem com elas. Eles nunca ficam ao pé de mim, estão sempre ao pé delas”, explica Miguel Afonso, acrescentando que “não se pode pensar, ah… são pequeninos, vamos levá-los para casa, ou para a aldeia, e depois deixamo-lo com as ovelhas, eles assim não se afeiçoam a elas, nem as protegem como deve ser”.
Oito cães da raça Cão de Gado Transmontano fazem a guarda apertada do rebanho. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.

Dois dos oito cães-pastores. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Dia nos montes; noite no resguardo, no inverno no estábulo, no verão no cercado
Miguel Afonso é guardador de rebanhos e faz jus ao nome. Anda sempre no rasto das ovelhas, salvo algumas exceções durante o verão, quando o rebanho fica um período apenas sob a guarda dos cães. A segurança é apertada. Meses a fio, está no campo com o gado. A curriça fica num terreno em Rio de Onor, a cerca de 7 km da sua casa. Durante o dia, está no monte. À noite, no inverno, recolhe-as num estábulo fechado. No verão, no cercado, com vedação com altura entre 1,70-1,80 metros.
“Uma raposa mais esperta ou um lobo mais afoito até poderiam, mesmo assim, trepar, mas não chegavam para fazer face aos oito cães que lá domem com elas”, garante o pastor.
"Se eu não tivesse cães, já não tinha ovelhas. Disso eu tenho a certeza. O ideal é ter um cão por cada 30 ovelhas, é o mínimo para garantir a segurança. É essencial os cães na guarda do rebanho. Proteção é essencial, proteger não só do lobo, mas também de raposas e mesmo de roubos; tendo cães, não há grandes problemas", diz, concluindo: "dos ataques que já ouvi falar aqui na zona, sei que ocorreram por falta de proteção".
À noite, as ovelhas ficam sempre resguardadas, sob a vigilância dos cães. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Solta de lobos: o mito rural que alimenta falsas narrativas e abala pontes de diálogo
Se há territórios onde a convivência com o lobo é mais pacífica, como no Parque Natural de Montesinho, há locais onde a animosidade para com a espécie tem crescido, como no Planalto Mirandês, sobretudo depois do aumento de ataques atribuídos ao lobo no último ano nesta região, o que, compreensivelmente, gera descontentamento e receios na população. Segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), foram registados 32 ataques de lobos no Planalto Mirandês em 20 meses.
Mas se há factos que abalam a convivência com o lobo, também há mitos que alimentam falsas narrativas e destroem pontes de diálogo entre as comunidades e quem trabalha para conservar a natureza e a biodiversidade, como o da "solta de lobos": “Não se sabe muito bem por quem, mas anda por aí uma carrinha branca a soltá-los nos montes…”; ou “andam a botar lobos”. A narrativa repete-se de boca em boca e é avivada sempre que ocorre um novo ataque. Mas esta não passa de um mito rural. As ditas "soltas de lobos" não existem e nunca foram feitas em Portugal.
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Convivência com o lobo é tendencialmente mais pacífica no Parque Natural de Montesinho. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Este mito poderá ser adensado, em parte, pelo "desconhecimento das comunidades rurais sobre o comportamento e a ecologia da espécie", refere o biólogo João Santos da Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, que integrou a equipa responsável pelas ações realizadas no Nordeste Transmontano do Censo Nacional do Lobo-ibérico 2019-2021, coordenado pelo ICNF.
“A natureza é dinâmica e o lobo pode movimentar-se por longas distâncias; tem um comportamento dispersivo durante o qual pode percorrer dezenas ou mesmo centenas de quilómetros, colonizando novas áreas ou reocupando territórios de onde havia anteriormente desaparecido", esclarece.
Porque há agora lobos onde antes parecia não haver? O caso do Planalto Mirandês
O facto de passarem anos sem que seja detetado um lobo num determinado lugar ou sem que tenha havido um ataque de lobo, não significa que um dia este não possa vir a surgir ou a acontecer novamente, exatamente por causa desse seu comportamento dispersivo, sobretudo no que toca aos lobos mais jovens que estão à procura de estabelecer o seu próprio território. Ou por ocorrerem dinâmicas em alcateias ainda não detetadas ou estudadas, por exemplo.
“É o que poderá está a acontecer no Planalto Mirandês, onde, no último ano, foram já registados dezenas de ataques atribuídos ao lobo, gerando prejuízos avultados para os criadores de gado e as comunidades locais”, explica João Santos, sublinhando, no entanto, "que é necessário fazer um seguimento no terreno e uma análise mais aprofundada para se perceber o que de facto está a ocorrer".
Mas uma coisa é certa: quando o lobo aparece ou reaparece numa determinada área, não surgiu “do nada porque o soltaram”, ocorreu porque o lobo se movimenta por longas distâncias quando está em dispersão, ou devido a dinâmicas das próprias alcateias.
A saga migratória de um lobo que percorreu países
Em 2011, por exemplo, o lobo Slvac fez um percurso surpreendente de 2000 km da Eslovénia para Itália, onde se fixou, depois de ter encontrado uma fêmea dispersante. Biólogos da Universidade de Liubliana, na Eslovénia, que lhe tinham colocado um colar com GPS seguiram a par e passo a sua impressionante saga migratória na altura. Na Península Ibérica, apesar de a distância percorrida em movimentos dispersivos ser bastante inferior, alguns estudos estimam que possam percorrer, ainda assim, uma distância que poderá variar de 13 km a pouco mais de 50 km. Em média 34 km.

Lobo-ibérico. Fotografia João Ferreira.
Um caminho para a coexistência…
As comunidades rurais têm todo o direito e toda a liberdade de desenvolver as suas atividades económicas, nomeadamente a criação de gado, com segurança e tranquilidade. A Palombar defende convictamente esse direito e apoia as populações locais. Por outro lado, o lobo é uma espécie histórica do território nacional, que tem igualmente o direito inalienável de viver livremente no seu habitat natural. Quando estas duas realidades se cruzam, na intersecção entre o rural e o selvagem, o humano e o animal-silvestre, é fundamental adotar as medidas mais indicadas para garantir a coexistência necessária e justa.
“O exemplo do pastor de Guadramil é importante para mostrar que é possível conviver com o lobo, minimizando ao máximo os riscos, através da adoção das medidas de proteção mais indicadas e comprovadas na prática que funcionam”, destaca o biólogo João Santos.

O pastor de Guadramil convive com o lobo e reconhece que esta espécie ameaçada deve viver livremente no seu habitat natural. Fotografia Uliana de Castro/Palombar.
Por outro lado, é igualmente essencial “que existam presas silvestres, como javalis, corços e veados, em abundância para que o lobo tenha alternativas para se alimentar e as investidas contra o gado doméstico sejam reduzidas. Também neste ponto, o papel dos caçadores é fundamental, através de uma gestão correta das populações de caça maior”, acrescenta.
A Palombar considera que é vital não só garantir a existência de presas silvestres para o lobo na sua área de ocorrência, como também dotar os criadores de gado dos instrumentos que os permitam conviver pacificamente com a espécie (como os utilizados pelo pastor Miguel Afonso, entre outros), diminuindo ao máximo o risco de ataques e as perdas. E sempre que elas existam, que seja célere, justo e eficaz o sistema de compensação dos prejuízos.
Mas tudo começa, na verdade, com uma mudança no interior do nosso próprio eu: quando compreendemos, todos, que o meio natural onde vivemos e do qual fazemos parte também é o espaço de espécies silvestres nativas, que, tal como nós, têm o direito de viver em liberdade no local onde nascem e existem. Acreditamos que coexistir com o lobo é possível. O pastor de Guadramil é prova disso.