Palombar

Pesquisa
  • NOTÍCIAS

NOTÍCIAS


Scroll Down

17 Agosto 2026

Campo de Trabalho Científico do projeto SerE+ mobilizou voluntários para controlar plantas invasoras na Serra da Estrela

Campo de Trabalho Científico do projeto SerE+ mobilizou voluntários para controlar plantas invasoras na Serra da Estrela

Campo de trabalho juntou 18 participantes de nove distritos para travar a invasão das invasoras. Fotografia Elizabete Marchante.

O Campo de Trabalho Científico (CTC) dedicado ao controlo de plantas invasoras na Serra da Estrela, organizado no âmbito do projeto SerE+ - Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela, realizou-se entre os dias 25 e 31 de julho, na Mata do Desterro, em São Romão, no concelho de Seia, e contou com 18 participantes provenientes de nove distritos (Aveiro, Braga, Bragança, Porto, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Santarém e Lisboa), que foram mobilizados para uma experiência de aprendizagem, partilha e intervenção prática em prol da conservação da natureza.

Esta foi uma iniciativa promovida pelo CISE - Centro de Interpretação da Serra da Estrela/Município de Seia e pela Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural, em co-organização com o CEF - Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e o CERNAS - Centro de Investigação de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade da ESAC - Escola Superior Agrária do IPC - Instituto Politécnico de Coimbra, enquadrada no projeto Invasoras.pt.

Uma semana a dar mais espaço à floresta nativa

Todas as manhãs foram dedicadas ao controlo da mimosa (Acacia dealbata), uma das espécies invasoras mais problemáticas da Serra da Estrela e de muitas outras regiões do país.

Equipados com ferramentas manuais e acompanhados por técnicos especializados, os participantes aplicaram várias metodologias de controlo, nomeadamente o arranque e o descasque, contribuindo para reduzir a presença desta espécie e criar melhores condições para a recuperação da vegetação autóctone da Mata do Desterro.

Ao longo de vários dias de trabalho, foram controlados centenas exemplares de plantas invasoras, num esforço coletivo que demonstra como pequenas ações, quando realizadas de forma continuada, podem gerar impactos significativos na recuperação dos ecossistemas.

Controlo da mimosa é essencial para fazer crescer a floresta autóctone. Fotografia Elizabete Marchante.


Aprender para intervir com eficácia: formação sobre invasões biológicas

As tardes foram reservadas à componente formativa do Campo de Trabalho Científico. Os participantes tiveram oportunidade de aprofundar conhecimentos sobre invasões biológicas, os impactos das espécies invasoras nos ecossistemas e as metodologias atualmente utilizadas para a sua gestão e controlo.

As sessões de formação sobre invasões biológicas foram dinamizadas por Hélia Marchante e Elizabete Marchante, investigadoras de referência nacional e internacional nesta área e coordenadoras da plataforma invasoras.pt, uma das principais iniciativas portuguesas de investigação, sensibilização, ciência cidadã e apoio à gestão de espécies de flora invasoras.

Ligadas ao Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e ao CERNAS, as duas investigadoras acumulam mais de duas décadas de trabalho dedicado ao estudo dos impactos ecológicos das invasões biológicas, ao desenvolvimento de estratégias de controlo e restauro ecológico e ao envolvimento da sociedade na conservação da natureza.

Invasões biológicas: intervir com conhecimento é crucial para um controlo eficaz. Fotografia Elizabete Marchante.


O programa incluiu também uma sessão dedicada à fauna invasora, com destaque para o caso do visão-americano (Neogale vison), dinamizada por Pedro Alves, biólogo da equipa da Palombar com experiência em projetos de conservação focados no restauro e conservação de galerias ripícolas, rios e ribeiras do Norte e Centro de Portugal. A sessão permitiu compreender melhor o impacto das espécies exóticas invasoras sobre os ecossistemas aquáticos e reforçou a ideia de que as invasões biológicas constituem, atualmente, um dos maiores desafios à conservação da biodiversidade.

Conhecer a Serra da Estrela para além das invasoras

Embora o controlo de espécies invasoras tenha sido o foco principal do CTC, a iniciativa procurou proporcionar uma experiência mais ampla de contacto com a natureza e com o território da Serra da Estrela.

Ao longo da semana, realizaram-se atividades complementares como uma observação astronómica no Observatório Astronómico de Travancinha, um percurso pedestre interpretativo entre a Mata do Desterro e a Praia Fluvial da Lapa dos Dinheiros, observação de morcegos e momentos de convívio junto às praias fluviais da região.

Estas atividades permitiram aos participantes conhecer melhor a biodiversidade local e compreender a relação entre os ecossistemas serranos, os serviços que proporcionam às comunidades e os desafios associados à sua conservação.

Sessão de observação de morcegos levou à descoberta de espécies que ocorrem na região. Fotografia José Conde.


Um Dia Aberto à Ccomunidade: envolver todos na conservação da natureza

Um dos momentos mais marcantes da semana foi o Dia Aberto à Comunidade, realizado a 30 de julho na Senhora do Desterro. A iniciativa reuniu cidadãos, associações locais, entidades públicas e organizações ligadas à conservação da natureza numa tarde dedicada à sensibilização para a problemática das espécies invasoras.

Durante uma conversa informal conduzida por Hélia e Elizabete Marchante, foram discutidos os impactos das invasões biológicas nos ecossistemas e na qualidade de vida das populações.

As espécies invasoras contribuem para agravar diversos problemas ambientais, desde a perda de biodiversidade ao aumento da intensidade dos incêndios rurais, passando pela degradação dos solos, alterações na disponibilidade e qualidade da água e impactos económicos em setores como a agricultura, a floresta, o turismo e a apicultura.

O dia terminou com a devolução à natureza de uma coruja-do-mato (Strix aluco), recuperada pelo CERVAS - Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, e com um momento de convívio entre participantes, voluntários e comunidade local.

Devolução à natureza de uma coruja-do-mato marcou o Dia Aberto à Comunidade. Fotografia José Conde.


Educação ambiental e participação ativa

O Campo de Trabalho Científico recebeu também a visita de jovens participantes de um campo de férias promovido pela associação Reencontro, que tiveram a oportunidade de conhecer as espécies invasoras presentes na Mata do Desterro e participar em ações práticas de controlo.

Esta atividade reforçou uma das dimensões mais importantes do CTC: a promoção da literacia ambiental e o envolvimento de diferentes públicos na conservação da natureza.

Ao longo da semana, ciência, educação ambiental, trabalho voluntário e contacto direto com o território cruzaram-se num processo de aprendizagem mútua que permitiu aos participantes compreender melhor os desafios ecológicos atuais e o papel que cada pessoa pode desempenhar na sua resolução.

Contacto direto com o território é fundamental para criar laços e fortalecer as ações de conservação ambiental. Fotografia José Conde.


Restaurar ecossistemas para reforçar os seus serviços


O controlo de espécies invasoras é uma das ações de restauro ecológico previstas no âmbito do projeto SerE+. Ao reduzir a pressão exercida por estas espécies sobre os habitats naturais, é possível criar condições para a recuperação da biodiversidade e melhorar os Serviços dos Ecossistemas prestados pela Serra da Estrela, como a regulação da água, garantindo a sua qualidade, a conservação do solo, o armazenamento de carbono e o suporte à atividade económica local.

O CTC 2026 demonstrou, uma vez mais, que a conservação da natureza beneficia da colaboração entre ciência, instituições e cidadãos, transformando conhecimento em ação concreta e direta no território.


Ciência, cidadãos e entidades de mãos dadas para proteger a floresta autóctone e os serviços dos ecossistemas na Serra da Estrela. Fotografia Elizabete Marchante.


Sobre o projeto

O SerE+ - Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela é um projeto coordenado pela Palombar, em parceria com o CE3C - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Município de Seia/CISE e o CSIC - Estación Biológica de Doñana.

O projeto tem como objetivo identificar e valorizar os serviços que os ecossistemas proporcionam, apoiar a conservação da natureza e contribuir para uma gestão mais sustentável e resiliente da Serra da Estrela face aos desafios climáticos e territoriais.

É apoiado pelo Programa Promove da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e decorre no período 2025 - 2028.