29 Junho 2026
Sisão: uma espécie com extinção anunciada à espera de salvação urgente

Defendemos a criação de um plano de emergência que envolva o Estado e várias entidades.
4.º Censo Nacional de Sisão revela redução de 90% da população desta espécie nos últimos 20 anos, defendemos medidas de conservação imediatas
A população nacional de sisão (Tetrax tetrax) está em risco iminente de extinção: diminuiu 90% nos últimos 20 anos, segundo os resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, que acabam de ser publicados. As organizações de ambiente SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves/BirdLife, LPN - Liga para a Proteção da Natureza, Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural, WWF Portugal, FAPAS, GEOTA e ZERO, apelam à adoção urgente de medidas de emergência para evitar a extinção desta ave em Portugal.
“Os resultados deste censo são alarmantes, mas, infelizmente, não são inesperados. Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo. Face a esta evidência, é incompreensível que o Estado português continue sem implementar medidas de conservação eficazes, falhando claramente as suas obrigações ao abrigo da Diretiva Aves da União Europeia”, diz Julieta Costa, coordenadora do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA/BirdLife.
Espécie depende de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos e alterações no uso do solo têm colocado em causa a sua existência
Outrora abundante nas planícies alentejanas, o sisão é hoje uma ave cada vez mais rara e difícil de observar. Dependente de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos, nidifica no solo, tornando-se especialmente vulnerável à intensificação agrícola. A substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal ou olival, e o aumento da intensidade do pastoreio, bem como a redução das áreas de pousio contribuem, igualmente, para a degradação dos locais de nidificação, o que tem causado o colapso da população de sisão. Outras aves estepárias prioritárias, a abetarda (Otis tarda) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), apresentam também declínios muito acentuados devido a estas ameaças. A crescente infraestruturação dos meios rurais, como sejam as linhas elétricas, representam fatores de mortalidade acrescidos para a espécie.
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"As ameaças ao sisão e às restantes aves estepárias não só não têm fim à vista, como têm aumentado em diversidade e intensidade nos últimos anos, contra todos os esforços - nossos e dos muitos agricultores com quem colaboramos - para as minimizar. São aves frágeis, que dependem de um ecossistema agrícola e da própria comunidade que o mantém, também sujeitos a inúmeras pressões que permanecem órfãs da atenção, preocupação, decisão e ação que lhes são devidas pelas autoridades nacionais. Se queremos travar a extinção destas espécies, temos de agir agora", defende Estrela Matilde, diretora executiva da LPN.
4.º Censo Nacional de Sisão revela que estamos perante uma extinção anunciada desta espécie
Os resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, coordenado pelo BIOPOLIS/CIBIO, e que contou também com a participação da Palombar, estimam a população em apenas 1 736 machos - um declínio de cerca de 90% desde 2006. “Desde o 1.º Censo Nacional de Sisão, em 2006, cada edição tem revelado um agravamento da situação da espécie. Já em 2022, a conclusão foi que o sisão estava em risco de extinção e, por isso, foi classificado como "Criticamente em Perigo". Passados quatro anos, a espécie continua em declínio, mesmo nas Zonas de Proteção Especial da Rede Natura 2000 que deviam protegê-la”, refere João Paulo Silva, do BIOPOLIS/CIBIO, coordenador do Censo Nacional de Sisão.
A situação de espécies como o sisão tem merecido a atenção dos ambientalistas e até da União Europeia, que tem cofinanciado projetos como o LIFE Iberian Agrosteppes, o LIFE SOS Pygargus, o LIFE EUROBUSTARD e o LIFE PowerLines4Birds. Mas, para que as ações no terreno surtam o efeito desejado, são necessárias medidas sistémicas que só o Governo pode regulamentar. A própria paisagem cerealífera está em risco.
Projeto LIFE SOS Pygargus aposta na agricultura cerealífera nacional para salvar espécies que dependem de habitats agrícolas, como o tartaranhão-caçador
“Em Portugal, registou-se uma perda de quase 80% da área de cereal desde o final da década de 1980, tendo passado de cerca de 900 mil hectares para aproximadamente 190 mil hectares, em 2023. A perda de área cerealifera vem também agravar a dependência de importações para o consumo nacional. A esta tendência associa-se um acentuado envelhecimento dos agricultores que ainda produzem cereal”, acrescenta Joaquim Teodósio, coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus, da Palombar, que implementa ações urgentes para salvar o tartaranhão-caçador (Circus pygargus) da extinção.
Ora, a perda da paisagem cerealífera significa também a perda da biodiversidade a ela associada e que dela depende, como é o caso de espécies ameaçadas como o tartaranhão-caçador e o sisão. É por este motivo que o projeto LIFE SOS Pygargus também aposta fortemente na produção cerealífera nacional, através de ensaios e seleção de cereais mais adaptados à região Norte e ao ciclo de vida destas aves, e da dinamização de uma nova organização de produtores de cereais nesta zona do país. A manutenção destas espécies valoriza, igualmente, a produção cerealífera, pois são indicadores de boas práticas ambientais cada vez mais apreciadas e exigidas pelos consumidores, em particular, e pela sociedade, em geral. Para salvar estas espécies, é preciso salvar o seu habitat, fomentar e valorizar a agricultura nacional, gerando benefícios ambientais, sociais e económicos regionais e nacionais.

Defendemos a criação de um um plano de emergência para salvar o sisão da extinção
As organizações de ambiente defendem a criação urgente de um plano de emergência, interministerial, com a participação de organizações não governamentais de ambiente (ONGA), agricultores, universidades e outros atores locais, que inclua a proteção ativa das áreas de reprodução, promoção das áreas cerealíferas e pousios com uma melhoria das medidas agroambientais e valorização da produção nacional, ordenamento de infraestruturas energéticas, limitação do regadio em áreas críticas e a criação de uma rede de reservas e de um programa de conservação ex-situ (reprodução em cativeiro para posterior devolução à Natureza).
Sem ação imediata, a extinção do sisão em Portugal poderá tornar-se uma realidade a curto prazo.
A população nacional de sisão (Tetrax tetrax) está em risco iminente de extinção: diminuiu 90% nos últimos 20 anos, segundo os resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, que acabam de ser publicados. As organizações de ambiente SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves/BirdLife, LPN - Liga para a Proteção da Natureza, Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural, WWF Portugal, FAPAS, GEOTA e ZERO, apelam à adoção urgente de medidas de emergência para evitar a extinção desta ave em Portugal.
“Os resultados deste censo são alarmantes, mas, infelizmente, não são inesperados. Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo. Face a esta evidência, é incompreensível que o Estado português continue sem implementar medidas de conservação eficazes, falhando claramente as suas obrigações ao abrigo da Diretiva Aves da União Europeia”, diz Julieta Costa, coordenadora do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA/BirdLife.
Espécie depende de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos e alterações no uso do solo têm colocado em causa a sua existência
Outrora abundante nas planícies alentejanas, o sisão é hoje uma ave cada vez mais rara e difícil de observar. Dependente de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos, nidifica no solo, tornando-se especialmente vulnerável à intensificação agrícola. A substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal ou olival, e o aumento da intensidade do pastoreio, bem como a redução das áreas de pousio contribuem, igualmente, para a degradação dos locais de nidificação, o que tem causado o colapso da população de sisão. Outras aves estepárias prioritárias, a abetarda (Otis tarda) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), apresentam também declínios muito acentuados devido a estas ameaças. A crescente infraestruturação dos meios rurais, como sejam as linhas elétricas, representam fatores de mortalidade acrescidos para a espécie.
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Ave identitária das paisagens alentejadas é cada vez mais rara de observar.
"As ameaças ao sisão e às restantes aves estepárias não só não têm fim à vista, como têm aumentado em diversidade e intensidade nos últimos anos, contra todos os esforços - nossos e dos muitos agricultores com quem colaboramos - para as minimizar. São aves frágeis, que dependem de um ecossistema agrícola e da própria comunidade que o mantém, também sujeitos a inúmeras pressões que permanecem órfãs da atenção, preocupação, decisão e ação que lhes são devidas pelas autoridades nacionais. Se queremos travar a extinção destas espécies, temos de agir agora", defende Estrela Matilde, diretora executiva da LPN.
4.º Censo Nacional de Sisão revela que estamos perante uma extinção anunciada desta espécie
Os resultados do 4.º Censo Nacional de Sisão, coordenado pelo BIOPOLIS/CIBIO, e que contou também com a participação da Palombar, estimam a população em apenas 1 736 machos - um declínio de cerca de 90% desde 2006. “Desde o 1.º Censo Nacional de Sisão, em 2006, cada edição tem revelado um agravamento da situação da espécie. Já em 2022, a conclusão foi que o sisão estava em risco de extinção e, por isso, foi classificado como "Criticamente em Perigo". Passados quatro anos, a espécie continua em declínio, mesmo nas Zonas de Proteção Especial da Rede Natura 2000 que deviam protegê-la”, refere João Paulo Silva, do BIOPOLIS/CIBIO, coordenador do Censo Nacional de Sisão.
A situação de espécies como o sisão tem merecido a atenção dos ambientalistas e até da União Europeia, que tem cofinanciado projetos como o LIFE Iberian Agrosteppes, o LIFE SOS Pygargus, o LIFE EUROBUSTARD e o LIFE PowerLines4Birds. Mas, para que as ações no terreno surtam o efeito desejado, são necessárias medidas sistémicas que só o Governo pode regulamentar. A própria paisagem cerealífera está em risco.
Projeto LIFE SOS Pygargus aposta na agricultura cerealífera nacional para salvar espécies que dependem de habitats agrícolas, como o tartaranhão-caçador
“Em Portugal, registou-se uma perda de quase 80% da área de cereal desde o final da década de 1980, tendo passado de cerca de 900 mil hectares para aproximadamente 190 mil hectares, em 2023. A perda de área cerealifera vem também agravar a dependência de importações para o consumo nacional. A esta tendência associa-se um acentuado envelhecimento dos agricultores que ainda produzem cereal”, acrescenta Joaquim Teodósio, coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus, da Palombar, que implementa ações urgentes para salvar o tartaranhão-caçador (Circus pygargus) da extinção.
Ora, a perda da paisagem cerealífera significa também a perda da biodiversidade a ela associada e que dela depende, como é o caso de espécies ameaçadas como o tartaranhão-caçador e o sisão. É por este motivo que o projeto LIFE SOS Pygargus também aposta fortemente na produção cerealífera nacional, através de ensaios e seleção de cereais mais adaptados à região Norte e ao ciclo de vida destas aves, e da dinamização de uma nova organização de produtores de cereais nesta zona do país. A manutenção destas espécies valoriza, igualmente, a produção cerealífera, pois são indicadores de boas práticas ambientais cada vez mais apreciadas e exigidas pelos consumidores, em particular, e pela sociedade, em geral. Para salvar estas espécies, é preciso salvar o seu habitat, fomentar e valorizar a agricultura nacional, gerando benefícios ambientais, sociais e económicos regionais e nacionais.

Projeto LIFE SOS Pygargus está a realizar ensaios de variedades de cereais para selecionar as mais adaptadas ao ciclo de vida do tartaranhão-caçador e à região Norte. Fotografia Pedro Alves/Palombar.
Defendemos a criação de um um plano de emergência para salvar o sisão da extinção
As organizações de ambiente defendem a criação urgente de um plano de emergência, interministerial, com a participação de organizações não governamentais de ambiente (ONGA), agricultores, universidades e outros atores locais, que inclua a proteção ativa das áreas de reprodução, promoção das áreas cerealíferas e pousios com uma melhoria das medidas agroambientais e valorização da produção nacional, ordenamento de infraestruturas energéticas, limitação do regadio em áreas críticas e a criação de uma rede de reservas e de um programa de conservação ex-situ (reprodução em cativeiro para posterior devolução à Natureza).
Sem ação imediata, a extinção do sisão em Portugal poderá tornar-se uma realidade a curto prazo.