21 Outubro 2026
Terceiro grupo de abutres-pretos devolvido à natureza no Douro Internacional para reforçar colónia transfronteiriça

O terceiro grupo de abutres-pretos do programa de aclimatação do LIFE Aegypius Return, quatro machos e uma fêmea. Fotografia Palombar.
O terceiro grupo de abutres-pretos que integrou o programa de aclimatação implementado pelo projeto LIFE Aegypius Return foi devolvido à natureza no dia 6 de outubro no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI). A estrutura onde se encontravam os cinco abutres-pretos que voltaram à liberdade foi aberta numa sessão enquadrada no Workshop Internacional "Vulture Conservation, Monitoring and Threat Detection", que decorreu entre os dias 6 e 9 de outubro, em Miranda do Douro.
Workshop reuniu várias entidades, especialistas e técnicos envolvidos na conservação das espécies de abutres europeus
O Workshop Internacional "Vulture Conservation, Monitoring and Threat Detection" foi organizado pela ERF - European Ranger Federation, em parceria com a VCF - Vulture Conservation Foudation, a Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural e o ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, com o apoio fundamental da União das Freguesias de Lagoaça e Fornos, no concelho de Freixo de Espada à Cinta, do Município de Miranda do Douro, e ainda do Clube de Produtores Continente e da Movhera.
Workshop Internacional "Vulture Conservation, Monitoring and Threat Detection" debateu várias questões centrais relacionadas com a conservação dos abutres europeus. Fotografia Iván Gutiérrez/Palombar.
Evento foi muito participado e envolveu vários agentes do território. Fotografia Iván Gutiérrez/Palombar.
Este evento reuniu especialistas nacionais e internacionais, investigadores, técnicos de conservação da natureza, Vigilantes da Natureza e representantes de diversas entidades públicas e privadas com responsabilidades na gestão e conservação das espécies de abutres europeus.
O workshop teve como principal objetivo promover a capacitação técnica dos participantes nas áreas da conservação, monitorização e deteção de ameaças às populações de abutres na Europa, fomentando, simultaneamente, a cooperação internacional, a partilha de conhecimento científico e a disseminação de boas práticas de gestão e proteção destas espécies.
Workshop reforçou cooperação internacional em prol da conservação das espécies de abutres que ocorrem na Europa. Fotografia Iván Gutiérrez/Palombar.
De onde vieram os abutres-pretos devolvidos à natureza?
O terceiro grupo de abutres-pretos (Aegypius monachus) deu entrada na estação de aclimatação no PNDI em março deste ano, sendo composto por quatro machos e uma fêmea. Destes, quatro são juvenis que tinham sido resgatados do meio natural com sinais de debilidade e desnutrição, em diferentes locais da região Centro: Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo), Torredeita (Viseu), Santa Comba (Seia) e Guarda, nos meses de setembro e outubro de 2025. O quinto é o jovem Pousio, nascido na colónia da Vidigueira, em 2024, e que, quando estava a dar os primeiros voos fora do ninho, foi vítima de tiro de caçadeira, enquanto se encontrava pousado, tendo ficado com mais de 22 chumbos e fragmentos de projéteis nas patas e no corpo. Desde que foi baleado, o Pousio tem passado por um processo de recuperação delicado, lento e complexo e a sua estadia na estação de aclimatação foi mais uma grande oportunidade de voltar à liberdade em pleno.

Dois abutres-pretos do terceiro grupo a integrar o programa de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return. Fotografia Palombar.
Os cinco abutres-pretos passaram previamente por um período de reabilitação em vários centros de recuperação antes de serem transferidos para a estação, nomeadamente no CRAS-HV-UTAD - Centro de Recuperação de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no CERVAS - Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens e no LxCRAS - Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa.
Check-up veterinário (antes e depois), recolha de amostras biológicas e marcação com GPS
Quer quando deram entrada na estação, em março, quer quando foram preparados para a saída da estrutura, no dia 30 de setembro, todos os abutres-pretos tiveram o seu estado de saúde cuidadosamente avaliado por médicos veterinários do CRAS-HV-UTAD, que analisaram a condição física de cada ave e recolheram amostras biológicas que serão usadas em estudos de conservação da espécie.
Todos os abutres-pretos tiveram o seu estado de saúde cuidadosamente avaliado por médicos veterinários do CRAS-HV-UTAD. Fotografia Uliana Maria de Castro/Palombar.
As aves, que já tinham sido anilhadas, também foram marcadas com dispositivos GPS/GSM pela equipa do Instituto Mixto de Investigación en Biodiversidad (IMIB, CSIC-Universidad de Oviedo-Principado de Asturias), em Espanha, que colabora com o projeto, equipamentos fundamentais para garantir a monitorização remota e contínua dos abutres e a recolha de dados essenciais para promover melhores medidas de proteção, conservação e gestão.
Foram também recolhidas amostras biológicas que serão usadas em estudos de conservação da espécie. Fotografia Uliana Maria de Castro/Palombar.
Por onde andam os abutres-pretos já em plena liberdade?
Após a abertura da estação de aclimatação, e de volta à liberdade plena, todos os abutres-pretos permaneceram, inicialmente, nos arredores da estrutura, mas, pouco a pouco, ensaiaram os primeiros voos exploratórios na área do Parque Natural do Douro Internacional.
O Pousio, num primeiro momento, causou alguma preocupação por apresentar padrões de comportamento que poderiam indicar alguma dificuldade de adaptação, mas, após alguns dias, parece já ter superado os percalços iniciais e, ao que tudo indica, está já a mostrar sinais de uma boa evolução a céu aberto.
Mapa de movimentos de um dos abutres-pretos após os primeiros dias a explorar o território do PNDI. Imagem Palombar/VCF.
Mas, infelizmente, nem tudo são boas notícias. Um dos abutres-pretos acabou por morrer dias depois de sair da estação. Os técnicos do projeto estão a avaliar o que terá ocorrido, mais, ao que tudo indica, muito provavelmente, terá sido predado por outro animal selvagem.
Programa de aclimatação: um método pioneiro com resultados comprovados
O projeto LIFE Aegypius Return implementou um programa de aclimatação pioneiro em Portugal para recuperar a população de abutre-preto mais ocidental da Europa e a mais isolada e frágil de Portugal. Este programa consiste em alocar abutres-pretos juvenis resgatados do meio natural para uma grande estrutura instalada em pleno PNDI, gerida pela Palombar em terrenos da Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza, para que passem por um processo de socialização entre pares, adaptação ao território e libertação lenta e faseada, potenciando a sua fidelização à área. Este método já mostrou eficácia comprovada, tendo contribuído de forma efetiva para o aumento da população da colónia transfronteiriça do Douro Internacional.
Programa de aclimatação tem sido um sucesso e já permitiu fixar quatro abutres-pretos na colónia mais frágil e isolada do país. Fotografia Alexandre da Silva.
Atualmente, há dez casais reprodutores de abutre-preto nesta colónia, cinco do lado português e cinco do lado espanhol, no Parque Natural Arribes del Duero. Em 2019, no PNDI, só havia dois casais a reproduzirem-se. Sem contar com o grupo de abutres-pretos agora devolvidos à natureza, foram já quatro os indivíduos provenientes da estação de aclimatação que se fixaram no território, contribuindo para aumentar de forma significativa esta população vulnerável.
O projeto LIFE Aegypus Return intervém em áreas classificadas da Rede Natura 2000. Na região Norte de Portugal, as ações centram-se na Zona de Proteção Especial Douro Internacional e Vale do Águeda (ZPE DIVA) que integra esta Rede e quase todo o território do PNDI.
Um nome para cada um, porque cada um é único e conta: envolver as novas gerações na conservação dos abutres
Com exceção do Pousio, já “batizado”, os restantes três abutres-pretos receberão nomes que serão escolhidos por alunos de escolas do concelho de Freixo de Espada à Cinta, onde a equipa de Educação Ambiental da Palombar irá dinamizar, no final de outubro, uma atividade de sensibilização ambiental com foco neste terceiro grupo de abutres-pretos devolvidos à natureza. Acreditamos que o envolvimento das novas gerações é fundamental para garantir um presente e um futuro promissor para todas as espécies de abutres que fazem parte da identidade do território, cumprem uma função ecológica essencial e partilham a paisagem connosco.
Bando de grifos (Gyps fulvus) a sobrevoar a estação de aclimatação, onde estiveram, durante vários meses, os cinco abutres-pretos devolvidos à natureza. O PNDI é uma área vital para a conservação de todas as espécies de abutres europeus. Fotografia Uliana Maria de Castro/Palombar.
O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.