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15 Setembro 2026

UE previa fim da dependência dos combustíveis fósseis até 2050, mas avança no sentido contrário

UE previa fim da dependência dos combustíveis fósseis até 2050, mas avança no sentido contrário
Apelamos à presidente da CE que elabore um programa claro para o fim do uso destes combustíveis e implemente o Pacto Ecológico Europeu

O Pacto Ecológico Europeu, lançado em dezembro de 2019, estabelecia como objetivo vinculativo central, a cumprir pelos Estados-membros da União Europeia (UE), alcançar a neutralidade carbónica na UE até 2050, o que implica a eliminação progressiva, com vista ao fim, da dependência dos combustíveis fósseis. Isto significa que a Europa deveria ter já começado a diminuir o máximo possível o uso destes combustíveis, reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa, bem como garantir a captura de carbono da poluição remanescente, que deveria ser já muito baixa em 2050.

No entanto, a UE está a seguir exatamente o caminho contrário, reforçando a dependência dos Estados-membros dos combustíveis fósseis e dos grupos económicos e corporativos ligados ao setor, que agudizam a crise climática, destroem o ambiente, agravam severamente a qualidade de vida das populações e aumentam exponencialmente o custo de vida dos cidadãos, devido à sucessão de crises provocadas por guerras geopolíticas em países produtores destes recursos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fará esta quarta-feira, 16 de setembro, o seu discurso sobre o Estado da União. A Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural junta-se a mais de 200 organizações e empresas europeias que apelam à presidente da CE que desenvolva um programa claro para o fim dos combustíveis fósseis, com medidas concretas e prazos estipulados para cumprimento efetivo, que exclua como solução de captura de carbono o recurso a tecnologias arriscadas como os gasodutos, em benefício real da natureza e das pessoas. A Palombar apela ainda que, no mínimo, se aplique efetivamente o Pacto Ecológico Europeu e que se cumpram os seus objetivos climáticos, enquanto há tempo (e já estamos a correr contra ele).


A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fará esta quarta-feira, 16 de setembro, o seu discurso sobre o Estado da União.


“Áreas de aceleração de CO2”: combustíveis fósseis, a aposta tem sido em mais e não em menos


A UE prevê construir, até 2050 (ironicamente - ou não - o mesmo ano em que as emissões europeias deveriam situar-se próximas de zero e em que a Europa atingiria a neutralidade carbónica), 19 mil km de gasodutos, com um custo estimado de 23 mil milhões de euros, a grande maioria proveniente de fundos públicos, de todos nós, cidadãos europeus. É o que as organizações que trabalham e lutam pelo equilíbrio climático chamam de verdadeiras “áreas de aceleração de CO2”. Não é aceitável que isto avance, vamos todos pagar um preço elevado, muitos com a própria vida.

Para os grandes poluidores e sorvedores de recursos naturais, inclusão; para os cidadãos, exclusão

As principais empresas mundiais e europeias poluidoras e consumidoras de matérias-primas e recursos naturais dos quais todos dependemos têm apostado fortemente no lobbying, investindo milhões de euros para influenciar e ditar, junto das instituições públicas europeias, as regras que orientam a nossa vida coletiva. E o investimento tem dado “lucros”: a Comissão Europeia, e outras instituições públicas na Europa, têm alargado a participação de representantes daquelas empresas e grandes grupos económicos nas rodas do poder, enquanto, por outro lado, exclui cada vez mais as organizações de ambiente e da sociedade civil dos centros de decisão.



Adicionalmente, a CE tem proposto a alteração (ou mesmo alterado) a legislação existente que protege o ambiente e as pessoas, com vista a aligeirar procedimentos que têm garantido, nas últimas décadas, a conservação do meio ambiente e a qualidade de vida dos cidadãos, nomeadamente reduzindo o controlo sobre o impacte ambiental e os efeitos nocivos para as populações de novos empreendimentos e infraestruturas, muitas deles privados.

A forma como a CE tem conduzido estes procedimentos foi mesmo denunciada pela Provedora de Justiça Europeia, Teresa Anjinho, que alertou para a má administração dos processos; para a não justificação plena e esclarecimento dos cidadãos sobre a urgência das propostas legislativas apresentadas; e para o facto de a CE reduzir o tempo de consulta pública relativa ao pacote legislativo sobre o ambiente (Omnibus I) para menos de 24 horas durante um fim-de-semana, entre os serviços da Comissão.

Crise climática e crise dos combustíveis: a “bomba explosiva” que coloca a sociedade (e o Planeta) em risco

O verão de 2026 na Europa, e também em Portugal, fica marcado por graves ondas de calor, com temperaturas recordes e (quase) insuportáveis. Os efeitos da crise climática já estão a olhos vistos. Vimos o flagelo do fogo destruir milhares de hectares de florestas e terras agrícolas por toda a Europa, incluindo Portugal, colocando em risco espécies, ecossistemas, comunidades e empresas; a pressão sobre o bem-estar das populações durante semanas a fio, com um aumento da mortalidade, os sistemas de saúde e as infraestruturas à beira do colapso devido às altas temperaturas. Em Portugal, até houve interrupção da circulação de comboios devido ao calor extremo, a própria CP - Comboios de Portugal confirma o impacto das altas temperaturas no serviço ferroviário. As pequenas e médias empresas também foram levadas ao limite.



A somar a esta equação explosiva, temos a grave crise dos combustíveis fósseis provocada por sucessivas guerras geopolíticas, como a guerra da Ucrânia e o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Esta conjuntura tem feito disparar o preço dos combustíveis e também da energia, aumentando drasticamente o custo de vida para a população em geral e, consequentemente, afetando o seu bem-estar, bem como para as empresas.

Verdade seja dita: somos nós, cidadãos, que estamos a pagar (e a sofrer) diretamente com os efeitos da crise climática e com a dependência da Europa dos combustíveis fósseis. E pagamos com as nossas vidas, com a nossa saúde, com o nosso dinheiro, e com a nossa qualidade de vida. É urgente agir para mudar o rumo.

Data centers: quando se alimenta as máquinas com recursos vitais

Há ainda mais um fator preponderante na equação: o crescimento vertiginoso da Inteligência Artificial (IA) tem feito disparar por toda a Europa, e também em Portugal, a construção de novos centros de processamento de dados (Data centers), cuja manutenção sorve recursos vitais para os seres vivos, incluindo nós: sobretudo água (muita) e eletricidade (em excesso), com grande impacto negativo sobre o clima, o ambiente e as comunidades. Estamos a “alimentar” as máquinas e a IA (que nos vão substituir no local de trabalho e anular o papel central do pensamento crítico e da ciência dialética) com aquilo que nos alimenta a nós. E já estamos a pagar um preço elevado por isso.



Erguer uma máquina de guerra em nome da paz e defender os combustíveis fósseis em prol de uma Europa mais unida não é o caminho

Erguer uma máquina de guerra em nome da paz tem sido a opção da União Europeia para dar resposta a um mundo já em conflito e crispação. Para isso, tem reorientado as prioridades, que já não são proteger e conservar o ambiente e garantir a qualidade de vida da sociedade, combatendo efetivamente a crise climática, mas sim apostar em segurança, armamento e… mais combustíveis fósseis, em nome de uma suposta autonomia e união na Europa. O investimento público europeu tem uma nova rota clara: mais combustíveis fósseis, mais armas, mais política securitária. Resta perguntar: de que segurança estamos a falar? E para quem? Em Portugal, também o Governo tem apostado fortemente na vertente securitária, onde o investimento disparou.

A Palombar subscreveu uma carta aberta coletiva enviada à CE, em conjunto com mais 25 organizações e por iniciativa da European Network Against Arms Trade, sobre as negociações do Defence Readiness Omnibus, que visa estimular qualquer processo que diminua o tempo e esforço na mobilidade e aquisição militar, para assegurar recursos e aumentar o mercado da indústria da defesa. A carta aberta alerta para os riscos da falta ou insuficiente monitorização da circulação de equipamentos militares, bem como para os riscos associados em matéria de Direitos Humanos e garantia da paz.

Enquanto a pasta securitária na UE tem um orçamento de 800 mil milhões de euros para serem usados até 2030, a outras áreas efetivamente vitais para a sociedade, como ambiente, saúde, educação e direitos humanos, faltam verbas e ação política e governativa para executar medidas.

O mundo ao contrário e o colapso da humanidade

Infelizmente, parece que estamos a avançar a passos largos para o colapso global. Quando as temperaturas forem literalmente insuportáveis para os seres vivos, incluindo humanos; quando as espécies se extinguirem; quando o ar for irrespirável; quando a fonte secar e não houver retorno, entraremos em colapso planetário, e ninguém vai escapar. Ajamos enquanto (ainda) há tempo.

É urgente travar recuos e avançar no caminho certo: o Pacto Ecológico Europeu é para cumprir

A proteção e a conservação da natureza tem sido um processo e uma luta coletiva alcançada ao longo de décadas na Europa, assim como a criação de instrumentos legais que salvaguardam o ambiente e as pessoas. Mas o que demorou décadas e muito esforço coletivo a erguer, pode vir abaixo em poucos anos, se se optar pelo caminho errado.



Apelamos à Presidente da Comissão Europeia que aplique efetivamente o Pacto Ecológico Europeu e cumpra os objetivos climáticos aí definidos. Colocar este Pacto na gaveta é comprometer o nosso presente e futuro coletivo. Urge travar recuos a avançar no caminho certo: a proteção da natureza e das pessoas.

É fundamental, no mínimo, cumprir a meta da neutralidade carbónica até 2050, sem depender de soluções tecnológicas arriscadas como os gasodutos de carbono, uma medida vinculativa prevista no Pacto Ecológico Europeu e que a CE quer agora fazer tábua rasa. O Pacto Ecológico Europeu é para cumprir.



Mas é preciso ir além: a estratégia mais eficaz de que precisamos urgentemente é um programa independente e baseado na ciência para combater, na prática e rapidamente, a crise climática, e tornar a Europa efetivamente livre dos combustíveis fosseis e das guerras que os sustêm, sem subterfúgios. Para proteger a natureza, as pessoas, a VIDA.

Apelamos. E, essencialmente, agimos, todos os dias, em defesa das pessoas, das comunidades, da natureza e do património humano material e imaterial.