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2 Novembro 2026

O retorno do gigante: população de abutre-preto continua a crescer e nova colónia é descoberta em Portugal

O retorno do gigante: população de abutre-preto continua a crescer e nova colónia é descoberta em Portugal

Abutre-preto chegou a estar extinto em Portugal como espécie nidificante na década de 1970 e o retorno desta ave é um sucesso para a conservação da natureza no país. Fotografia Paulo Monteiro/SPEA.

Já há seis colónias desta espécie ameaçada no território nacional, mas consolidação efetiva exige esforço continuado

A recuperação do abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal continua a consolidar-se, revelam os mais recentes resultados de monitorização da época de reprodução de 2026, que confirmam um novo crescimento da população desta espécie ameaçada de extinção. Este ano, foram registados entre 127 e 131 casais nidificantes nas colónias monitorizadas, em comparação com os 119-126 casais em 2025. O número de crias que atingiram a fase de voo também aumentou, passando de 56 juvenis no ano anterior para uma estimativa de 61 a 68 juvenis voadores nesta época.

Mas há mais: foi descoberta uma nova colónia reprodutora em Monfortinho, na região Centro de Portugal, que fez aumentar para seis o número de colónias conhecidas no território nacional. Este constitui mais um marco positivo na recuperação da espécie, demonstrando a importância da monitorização contínua e o potencial do abutre-preto para recolonizar áreas da sua antiga distribuição onde se encontrava localmente extinto.

No entanto, o crescimento populacional, por si só, não garante a recuperação da espécie a longo prazo. A continuidade dos esforços de monitorização, o aumento da disponibilidade alimentar, a proteção eficaz dos habitats de reprodução e a implementação de medidas de mitigação das ameaças existentes continuam a ser essenciais para assegurar o futuro desta espécie ameaçada.

Uma população em crescimento, com uma nova colónia

Os resultados de 2026 evidenciam progressos em várias áreas de reprodução já estabelecidas em Portugal, embora as tendências observadas variem entre colónias.

O gigante está a voltar, mas os desafios são uma constante e a consolidação exige um esforço continuado.


Monfortinho: nova colónia descoberta tem dois casais nidificantes e sete ninhos

Uma das descobertas mais entusiasmantes da época de reprodução de 2026 foi a identificação de uma nova colónia em Monfortinho, no concelho de Idanha-a-Nova, na região Centro, com dois casais nidificantes identificados e sete ninhos encontrados na área.

Ambos os casais realizaram postura e a colónia produziu um juvenil voador. Embora ainda de pequena dimensão, este novo núcleo reprodutor constitui um desenvolvimento muito relevante: o estabelecimento de novas colónias pode contribuir para a recolonização de áreas historicamente ocupadas pela espécie e reforçar o seu processo de recuperação em Portugal.

Esta descoberta evidencia a importância da monitorização sistemática no terreno. A deteção precoce de novos locais de reprodução permite compreender melhor a evolução da população e identificar áreas onde a implementação de medidas de proteção direcionadas poderá ser necessária.

Douro Internacional: recuperação contínua

A colónia do Douro Internacional registou entre dez e 11 casais nidificantes em 2026, um aumento relativamente aos oito casais registados em 2025. Dez casais realizaram postura, resultando na produção de sete juvenis voadores.

Trata-se de um grande progresso para uma colónia que sofreu fortes impactos na sequência do incêndio florestal devastador de agosto de 2025. Os resultados mais recentes sugerem que a população reprodutora continua a recuperar e algumas das aves devolvidas à natureza através do Programa de Aclimatação do projeto têm também apresentado sinais de comportamento reprodutor. No entanto, as perspetivas de longo prazo desta colónia continuarão a depender do sucesso reprodutivo, da proteção do habitat e da continuidade dos esforços de conservação.


Monitorização da colónia do Douro Internacional é fundamental para garantir o sucesso da reprodução. Fotografia Iván Gutiérrez/Palombar.


Serra da Malcata: uma ligação estratégica entre colónias


Na Serra da Malcata, a equipa de monitorização registou entre 11 e 12 casais nidificantes. Onze casais realizaram postura, produzindo entre nove e 11 juvenis voadores.

Localizada entre as regiões do Douro e do Tejo e próxima de habitat adequado do outro lado da fronteira com Espanha, a Malcata desempenha um papel importante na conectividade entre áreas de reprodução. A manutenção de condições de habitat favoráveis e a garantia de que as aves se podem deslocar em segurança entre colónias serão fatores importantes à medida que a população continua a expandir-se.

Tejo Internacional: o principal bastião da população portuguesa

O Tejo Internacional permanece a área de reprodução de maior dimensão da espécie em Portugal, com uma estimativa de 71 a 73 casais nidificantes em 2026. Destes, 63 casais realizaram postura, resultando na produção de 33 a 35 juvenis voadores.

Esta colónia continua a concentrar mais de metade dos casais reprodutores registados nas áreas monitorizadas. A sua dimensão e extensão geográfica tornam a monitorização particularmente exigente, sendo que a distribuição transfronteiriça das aves reforça a importância da colaboração entre as autoridades e organizações de conservação portuguesas e espanholas.

A proteção deste núcleo é essencial, assegurando não apenas o crescimento contínuo da espécie, mas também a conectividade ecológica com as restantes colónias reprodutoras.

Vidigueira/Portel: consolidação no Alentejo

A colónia de Vidigueira/Portel, identificada pela primeira vez em 2024, manteve 13 casais nidificantes em 2026. Destes, dez casais realizaram postura, resultando em quatro a cinco novos juvenis voadores.

O estabelecimento desta colónia no Alentejo constituiu já um desenvolvimento significativo, estendendo a área de reprodução da espécie para regiões mais distantes da fronteira espanhola. A sua permanência ao longo do tempo é um sinal encorajador, embora o desempenho reprodutivo continue a merecer atenção.

A proteção desta área face a perturbações e a projetos de desenvolvimento inadequadamente planeados será fundamental para garantir que esta colónia possa consolidar-se e contribuir de forma mais consistente para o reforço da população nacional.

Todas as colónias são monitorizadas de forma continuada pelas equipas técnicas do projeto. Fotografia Célia Rosa.


Herdade da Contenda: manutenção de uma importante área de reprodução


Na Herdade da Contenda, o número estimado de casais nidificantes atingiu os 20, dos quais 18 realizaram postura. A colónia produziu entre sete e nove juvenis voadores.

Enquanto uma das mais importantes áreas de reprodução no sul de Portugal, a Herdade da Contenda continua a ser fundamental para a recuperação nacional da espécie. A manutenção dos esforços de monitorização e a implementação de medidas adequadas de gestão do habitat contribuirão para manter esta colónia e o seu contributo para a população.

Melhoria do desempenho reprodutivo

No conjunto das seis colónias monitorizadas, 114 casais realizaram postura em 2026, produzindo uma estimativa de 61 a 68 juvenis voadores. O sucesso reprodutivo foi estimado em 0,54 a 0,60 juvenis por casal com postura, um aumento comparativamente aos 0,50 calculados em 2025.

Estes resultados representam uma melhoria do desempenho reprodutivo, a par do aumento do número de casais nidificantes. No entanto, as diferenças observadas entre colónias demonstram que a recuperação da espécie não é uniforme. Algumas áreas apresentam resultados encorajadores, enquanto outras continuam a enfrentar desafios que poderão limitar o seu contributo para o crescimento da população.

Os resultados evidenciam também a importância de uma monitorização que vá além da simples contagem de casais nidificantes. Compreender quantos casais tentam reproduzir-se, quantos conseguem criar juvenis com sucesso e de que forma estes indicadores variam entre anos é fundamental para avaliar as perspetivas da população a longo prazo.

Consolidar o futuro do abutre-preto

O regresso do abutre-preto como espécie nidificante em Portugal, após a sua extinção como reprodutora no país durante a década de 1970, é um marco muito importante em matéria de conservação. Os resultados mais recentes reforçam a tendência positiva observada nos últimos anos e comprovam que a espécie está a recuperar a sua presença reprodutora no território nacional.


Colaboração transfronteiriça é fundamental para consolidar o retorno da espécie. Fotografia Iván Gutiérrez/Palombar.


Os desafios são uma constante

Alguns desafios importantes mantêm-se sempre presentes e, a qualquer momento, podem afetar diretamente e de forma significativa a conservação da espécie. Os incêndios florestais e os fenómenos meteorológicos extremos podem provocar a destruição de ninhos e o insucesso reprodutivo, enquanto o envenenamento, o abate ilegal e a perturbação humana continuam a representar ameaças diretas para os abutres. A escassez alimentar constitui igualmente um desafio significativo, sobretudo para os juvenis durante o período crítico que se segue à saída do ninho. Paralelamente, o rápido desenvolvimento de infraestruturas de energias renováveis que se tem registado em Portugal exige um planeamento cuidadoso, de forma a minimizar riscos de colisão e eletrocussão, bem como a perda de habitat e a perturbação em áreas sensíveis de reprodução.

Sucesso alicerçado na colaboração transfronteiriça

O sucesso alcançado até agora na recuperação das populações de abutre-preto está alicerçado numa forte colaboração transfronteiriça entre Portugal e Espanha. Pelo menos três das colónias reprodutoras atualmente conhecidas (Douro Internacional, Tejo Internacional e Herdade da Contenda) localizam-se ao longo da fronteira entre Portugal e Espanha, assumindo, por isso, uma natureza transfronteiriça.

Adicionalmente, duas outras colónias (Malcata e Monfortinho) situam-se muito próximas da fronteira, encontrando-se os seus ninhos mais orientais a curta distância de território espanhol. Embora ainda não tenha sido observada diretamente atividade reprodutora transfronteiriça nestas colónias, considera-se altamente provável que também funcionem como núcleos partilhados entre os dois países.

A monitorização realizada pelos parceiros do projeto LIFE Aegypius Return abrange igualmente algumas áreas imediatamente adjacentes em Espanha. Pelo menos 33 dos casais monitorizados este ano (num total de 127 a 131 casais nidificantes) possuem os seus territórios e ninhos localizados em Espanha, do outro lado da fronteira.

Sobre o projeto

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.